Chegou, enfim, o dia em que a multidão vocifera contra a semântica, guiada pelos novos especialistas em linguagem para os quais uma palavra não pode ter senão um único significado: aquele conhecido e reconhecido por eles próprios. E é assim que o adjetivo “negro” só pode referir-se à cor de uma pele. De um preconceito revoltante, portanto, dizer “noite negra”, “magia negra”, “dias negros” e similares. Que coisa… Para resolver o problema, bastaria consultar um dicionário; mas ocorre que este também se tornou intoleravelmente preconceituoso. Então é preciso fazer um exercício mental e perguntar, para além da etimologia da palavra, de onde pode ter surgido a noção que a fundamenta. Um homem com alguma cultura percebe de imediato que o adjetivo “negro” funda-se não na cor de uma pele, mas no simbolismo natural mais antigo, o mais básico e óbvio, captado pelo primeiro homem que pisou nesta terra no primeiro dia de sua vida, no simbolismo que representa a contraposição entre luz e trevas, claridade e escuridão, presente nas manifestações naturais mais evidentes entre todas: o dia e a noite. Obviamente, o especialista que o não compreende também não compreenderá a conotação negativa que brota desta última. Ele pode pressionar um interruptor e acender uma lâmpada em seu quarto a qualquer momento, algo que um homem de Neandertal não podia fazer. Ah, mas se o especialista passasse um único dia, sozinho, numa caverna! Lá, sem dúvida, haveria tempo e motivo para que revisasse o seu ilustríssimo conteúdo mental.
Talvez o que haja de mais efetivo na tradição…
Talvez o que haja de mais efetivo na tradição oriental, centrada em formar indivíduos através de uma relação única entre mestre e discípulo, seja a noção claríssima que se consolida na mente do discípulo, o qual, ciente da extensão de sua dependência do exemplo do mestre, apreende a importância de ser exemplar. Daí só decorrem efeitos positivos, e o hábito se cultiva embasado na certeza de que somente a ação edifica. O discípulo, imitando o mestre, torna-se um mestre; passa a ensinar como aprendeu, e não perde jamais a gratidão que se manifesta no sentimento de que, em verdade, não fez senão receber.
Dificilmente se consegue direcionar a vontade…
Dificilmente se consegue direcionar a vontade e controlar quando se alcançará aquilo que se quer. O mais das vezes, quando o tempo não faz com que o intento esmoreça, seja este de longo prazo e, então, virá apenas quando tiver de vir. Salvo engano, é Swami Sivananda quem diz que os desejos mais nobres só se realizam ao renunciá-los, após muitas lágrimas e grande desgaste. Seja como for, a imersão no processo às vezes distrai a mente do avanço que faz; progride-se imperceptivelmente, quando não se experimentando a sensação de estagnação. Quando menos se percebe, atingiu-se o objetivo desejado ou, em casos mais belos, este simplesmente aparece, como por graça.
O que há de mais divertido na escrita
O que há de mais divertido na escrita é a possibilidade de individualizar completamente o processo, de maneira a fazer com que o elemento subjetivo atue como potencializador. Na maioria das ocupações, isso não é possível, e a eficácia do processo costuma demandar uma execução sequencial objetiva, algo que, com o tempo, tende a desestimular. Mas o escritor pode muito bem habituar-se a passar um café, ou acender um cigarro nos momentos anteriores ao trabalho, e presenciar, efetivamente, que ao fazê-lo as ideias começam a se mover. No seu processo criativo, há lugar para todas as suas manias, e isso produz uma enorme satisfação.