Se é legitimado pela repetição o drama do jornalista que passa a vida carregando o sonho frustrado de fazer literatura, é preciso notar que, na maioria dos casos, tal sonho não passa de uma imagem idílica, como qualquer outra, concebida sem reflexão. O jornalista frustrado nunca reflete sobre aquilo que o jornalismo lhe proporciona e a literatura muito, mas muito dificilmente poderia igualar. Em primeiro lugar, um salário; depois, reconhecimento e reputação. Se bem analisarmos, são coisas sem as quais qualquer jornalista só se imaginaria trabalhando num pesadelo. Mesmo o pior jornalista recebe um salário e goza de algum prestígio, tem algum público que o escuta e que o lê. Num cenário sem nada disso, ainda faria literatura? É claro que não. Portanto, o alegado drama é sempre mais fantasioso que real.
A literatura, impossibilitada como se tornou…
A literatura, impossibilitada como se tornou de ser profissão, só pode hoje gerar uns tipos inadaptados e anormais. Porque, afinal, praticá-la é não menos que trabalhar sem expectativa de retorno, algo que ninguém conscientemente faz. Assim, o escritor como que destaca uma parte de seu tempo da “vida normal”, e quanto maior essa parte, quanto mais for autenticamente escritor, mais se afastará da norma, mais se concretizará anormal. Não há solução. E se é quase incontornável a tendência de que fracasse em levar uma vida comum, ao menos tornou-se mais fácil verificar a sinceridade de sua vocação.
A primeira coisa que o estudante deve ter em mente…
A primeira coisa que o estudante deve ter em mente ao iniciar a investigação de qualquer assunto é: tudo quanto já se afirmou, já se refutou; tudo quanto já se elogiou, já se criticou; tudo quanto já se teve por regra, já se violou; e para cada exemplo de determinada teoria, de determinada corrente, de determinado estilo ou de determinada inclinação, é possível encontrar um exemplo contrário. Isso é fundamental para que o estudante tenha cautela, e não abra jamais um livro à espera de um ponto final. O bom aprendizado é estimulante, incita mais estudo e não menos, movimenta em vez de paralisar.
Demora muito para separar-se da cultura vigente…
Demora muito para separar-se da cultura vigente, ainda que de forma parcial, e habilitar-se a enxergar a filosofia e a história com lentes menos contaminadas. Às vezes, uma vida não basta. E por isso são afortunados aqueles que cedo conseguem definir o que buscam do estudo, então traçando um plano mais ou menos definido de investigação. Com uma meta visível, fica mais fácil aprofundar-se e consequentemente descobrir o que, no início, nem dava pistas de existir. Daí se abre um novo mundo, alienando permanentemente aquele que o consegue enxergar. O esforço compensa; embora, sem dúvida, não seja um processo indolor.