Uma dinâmica de relações toda particular…

Uma dinâmica de relações toda particular é responsável por fazer, com frequência, grandes personalidades tornarem-se desastres sociais. Socialmente, o triunfo exige qualidades específicas, que nada têm que ver com o nível de desenvolvimento pessoal. Há regras veladas, algumas das quais não se percebe sem cinismo, e não observá-las pode ser fatal. Com um grupo, não se pode estabelecer relações íntimas, e a sinceridade tem o seu valor relativizado. Deve-se agir sempre norteando-se por aquilo que convém, algo que, para alguns tipos, é simplesmente antinatural. Assim, muito do que às vezes choca nalgumas biografias não deveria causar grande impressão.

É compreensível o grande interesse…

É compreensível o grande interesse, e até nobre interesse dos críticos na literatura contemporânea. Há casos em que, sem eles, o público não tomaria conhecimento, ou não saberia estimar ótimos autores. Também é compreensível, e sob muitos aspectos benéfico quando o crítico consegue estabelecer laços pessoais com um ou vários autores. Porém, talvez não haja mais evidente armadilha a ser colocada em seu caminho, e destas capazes de arruinar a longevidade de sua obra. É chocante observar como, às vezes, podem coexistir na cabeça do crítico um senso histórico apuradíssimo e o mais completo descompasso quando se trata da literatura atual. Isso se percebe, é claro, quando o atual envelhece, escancarando o quanto dele o crítico deixou-se contaminar. Nestes casos, a coragem e a probidade de emitir um juízo sempre sincero pouco fazem para atenuar o problema: tudo parece incoerente quando se tem como norte um desajustado senso de proporções.

Só com bocejos se pode responder a velha teoria…

Só com bocejos se pode responder a velha teoria, revivida de tempos em tempos em nova roupagem, segundo a qual a grande arte é aquela que se limita a retratar a realidade com exatidão. Fosse isso, bastaria que conservasse a fidelidade, e seria grande a arte que retratasse a cena mais estúpida, repulsiva, banal ou desinteressante. Em verdade, é o efeito contrário que alcança caso se detenha minuciosamente em algo que deveria desprezar. Para confirmá-lo, basta imaginar o ridículo que seria uma peça musical na qual o compositor se esforçasse por replicar com perfeição alguns “sons da natureza”. Só é grande a arte que, valendo-se do meio que for, eleva aquele que com ela entra em contato, ou pelo menos guarda tal possibilidade; o resto é tolice.

O estudo disso que se convencionou chamar…

O estudo disso que se convencionou chamar esoterismo é frustrante por inúmeras razões. A primeira delas é a quantidade de farsantes e falsários que pululam neste terreno. Depois, o universo tedioso que o envolve. Mas, sobretudo, é por não entregar aquilo que promete que o esoterismo se torna mais frustrante. Ao menos, por ele o estudante não se realiza, e só o descobre após muito estudo, quando não após algo pior. Contudo, seria faltar com a verdade classificar este estudo como vão. O “esoterismo” se apropriou de uma tradição que, sem ele, vinha quase esquecida. Mas além disso: após milhares de páginas, percebe-se que algo se aprendeu. E ainda que, durante o processo, tal aprendizado não se tenha mostrado evidente, o próprio estudo, quiçá valendo-se das páginas como intermediárias, ou como inspiração, dá a impressão final de ter revelado algo de valor.