Decerto, a psicologia ocidental do século XX avançou no diagnóstico e na descrição de quadros de loucura. Avançou, também, na compreensão de reações comportamentais características em determinadas condições. Expandiu, ainda, e muito, o repertório descritivo utilizado para caracterizar personalidades. Tudo isso tem valor. Contudo, parece evidente que, nesta altura, já se demonstrou impossível o sonho de uma teoria unificada. Também parece evidente que os psicólogos, em desacordo terminante sobre o que seria a tal da psique, não podem senão captá-la parcialmente, na melhor das hipóteses — aquela em que algo dela conseguem captar. Assim, cada psicólogo se acaba especializando num tipo de psique, ou em determinados aspectos da psique. Aqui, fica claro o problema. Se o psicólogo tenciona eficácia no tratamento de determinados tipos de pacientes, é seguir adiante; se, porém, busca mais do que uma terapia direcionada, talvez tenha de tomar um rumo bem diferente daquele que tomou a psicologia ocidental.
É fácil imaginar o desprezo de um intelectual…
É fácil imaginar o desprezo de um intelectual ocidental ao percorrer algumas páginas de literatura oriental, e fácil entender as razões de seu desprezo. Ocorre, porém, que ele repara a ausência de seu padrão costumeiro, mas não se questiona sobre o fundamento do que lê. Fizesse isso, talvez abriria uma porta. Talvez mudasse, talvez crescesse, talvez aprendesse algo novo, que jamais imaginou. Mas a ignorância é desses pecados que não se admite. Reconhecer que, com uma vida inteira nas costas, não se percebeu o essencial… É muito mais confortável desperdiçar também o que resta dela.
Embora nunca assumida, e nunca apregoada…
Embora nunca assumida, e nunca apregoada, há uma diferença qualitativa demasiado óbvia entre a poesia que se funda em mentiras e aquela fundada em impressões verdadeiras. Assumi-lo, contudo, é ver com novos olhos grande parte dos poetas laureados, algo que ninguém parece se dispor a fazer. Mas é preciso notar que, se tomados a sério, talvez não haja piores conselheiros e piores mentirosos do que estes inumeráveis poetas que tudo envolvem de sensualidade: o que chamam de “beleza”, “doçura”, “encanto” é simplesmente falso. Como, pois, reputá-los tão eminentes se só sabem trabalhar com ilusões? Falta-lhes realidade, e a percepção de que a verdadeira beleza permanece. É com certeza mais difícil, mas não é impossível conceber uma poesia laudatória que se ampare numa intuição real.
A visão de mundo que elimina da realidade…
A visão de mundo que elimina da realidade o não mensurável e não compreensível, para além de infantil e esterilizante, tende a capacitar o homem a atos monstruosos e torná-lo um animal supinamente traiçoeiro. A compreensão errônea que faz do mundo distorce a importância que reputa a si mesmo, minando as noções de dependência e fragilidade. Mas o pior, sem dúvida, é a ilusão de sentir-se liberto, isolado, habilitado a todo o saber e a todo o agir. Medra, assim, o amor-próprio mais destrutivo que se pode conceber. Nada o sujeita, ninguém o observa, e não há contas a prestar. Tal homem, é tê-lo sempre longe e não lhe dar a menor atenção.
