Analisando a minha obstinação…

Analisando a minha obstinação com aqueles temas que dão as notas mais insuportavelmente pessimistas de minha ficção, a saber, a violência, a insegurança, a feiura do ambiente e a incultura como norma, vejo que, instintivamente, acabo acertando aquilo que mais se distingue e mais importa nas últimas décadas. Nada há de original em nenhum destes temas; contudo, a virulência com que eles se impõem no cotidiano atual, todos eles de alguma forma interligados, e todos eles com ramificações incalculáveis, é algo que há algumas décadas não poderia ser retratado, por não corresponder à realidade. E mais importa fazê-lo agora porque mais se tenta ocultar o quão deprimente é o estado em que o Brasil se meteu. Não é possível olhar tudo isso sem o máximo espanto: um país que objetivamente alia as maiores taxas de homicídio com os piores níveis de educação do planeta… Dizê-lo e retratá-lo é, mesmo, desagradável, e não pode senão despertar antipatias. Mas alguém tem de fazê-lo, ainda que por consideração às vítimas desta catástrofe.

Em meados do último século…

Em meados do último século, não eram poucos os autores que recordavam saudosamente a belle époque, lamentando uma deterioração generalizada que abrangeu da arte ao cotidiano, das oportunidades aos costumes, da qualidade de vida às relações pessoais. Na maioria dos casos, o lamento partia de autores que viveram a infância no referido período, e portanto adicionavam ao contexto a lembrança de suas mais afetuosas memórias infantis. A geração seguinte, nascida no pós-guerra, que cresceu ouvindo de seus pais as histórias dos tempos passados memoráveis, é hoje a que relata com saudade os costumes que se perderam, as oportunidades que abundavam e o ambiente que se foi. Curiosamente, a geração que hoje vive a maturidade, se ainda não lamenta os tempos áureos de outrora, já pode pressupor com segurança que bastarão alguns anos para que comece a fazê-lo, em vista da atual degradação, também visível e generalizada. Que dizer?

Ao menos uma lição se pode tirar dos céticos…

Ao menos uma lição se pode tirar dos céticos: apegar-se apaixonadamente a uma crença é quase sempre tolice; o melhor é a serenidade, perante as dúvidas e perante as certezas. Apegar-se é frequentemente fechar-se, adicionando à crença um sentimento que o tempo amplifica, até um ponto em que, à menor contrariedade, exibe-se uma reação violenta. Afinal, manifesta-se não o conhecimento, ainda que presente, mas somente a emoção.

O brasileiro, hoje, cresce desprovido…

O brasileiro, hoje, cresce desprovido de um ambiente cultural compartilhado. Cresce sem saber o que é, por exemplo, literatura. E se por acaso a descobre, se um milagre desperta-lhe a curiosidade por ela e então procura o lugar em que escrevem os grandes autores, em que os grandes críticos estão a apresentar e criticar obras literárias, a disseminar o que de melhor se escreveu e se tem escrito, ele não o encontra, porque esse lugar não existe. O que há de bom são páginas amarelas e desbotadas, compráveis de segunda mão. E é curiosíssimo notar que, hoje, mesmo o que se escreve sobre literatura, não se escreve, mas se fala: o formato da alguma crítica literária que subsiste, compelida pela audiência, é o vídeo. Livros e letras tornaram-se intragáveis. Esse fracasso cultural assombroso, causa de um fracasso humano ainda maior, não ocorreria jamais num país que dispusesse ao menos de uma elite culta, porque esta, se verdadeiramente culta, tomaria para si a obrigação de algo fazer pela cultura, de algo fazer pelo país. Mas não, não… o melhor, agora, é nem instigá-lo, porque o mecenas possível é um mecenas já existente e desgraçadamente deturpado.