Tornou-se corriqueiro dizer da preguiça o principal vício do caráter brasileiro. Nada mais falso! Este posto pertence à maledicência, e a uma maledicência suprema e sui generis. No Brasil, tal vício não remonta como noutras bandas simplesmente à inveja. A maledicência, aqui, começa pelo hábito, pelo impulso incontrolável, inato e cotidiano de falar da vida alheia, algo desde logo detestável. Disso para maldizer, contudo, há uma distância que só pode ser preenchida por uma infâmia mais profunda: a inveja, sim, mas também a covardia, a necessidade de aceitação, a mesquinhez desmedida, a ausência de personalidade, como muitíssimo bem retratado por Orígenes Lessa. Talvez seja mais simples colocar a questão da seguinte maneira: o maldizente brasileiro não deseja as qualidades do objeto de seu maldizer; ele deseja, pelo contrário, que este as perca e desça ao seu nível miserável; maldiz, pois, não por um “querer valorizar-se”, mas para amesquinhá-lo, algo só possível num espírito que desceu ao mais baixo entre os círculos da mediocridade.
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O século XX não parece ter sido suficiente…
O século XX não parece ter sido suficiente para demonstrar o risco da politização da filosofia, nem os desastres decorrentes da interpretação do “ato” como ato político, ou da “responsabilidade” como princípio que pleiteia o indivíduo como agente coletivo. Persiste o esforço para desvirtuar o pensamento e empregá-lo como pretexto e recurso nesta fábrica moderna de ativismo, a despeito de comprovadamente só produzir destruição. É lamentável, mas não parece ser com menos ativismo que se poderá combater o ativismo atual.
A inteligência principia com a capacidade…
Se, como está dito, a inteligência principia com a capacidade de maravilhar-se, decorre também que quanto mais se dissemina a noção de normalidade, mais difícil é para que a inteligência se manifeste. Quer dizer: a começar pelo próprio universo, passando pela natureza, pela sociedade até culminar nos detalhes do cotidiano, mirar tudo isso e tê-los como naturais, corriqueiros, em vez de espantar-se da sucessão extraordinária de fatores necessários para gerá-los, é mesmo coibir a manifestação do intelecto.
Sob nenhum aspecto a sede de domínio…
Sob nenhum aspecto a sede de domínio pode ser considerada virtuosa, embora seja característica ubíqua na história. Todas as razões imagináveis estão aí muito bem documentadas para condená-la, mas ainda assim o presente século a observa expandindo-se por meios cada vez mais poderosos, sem que se lhe contraponha ao menos o consenso de ser urgente freá-la; freá-la, expô-la e subjugá-la. Experimentar consequências tão óbvias e facilmente perceptíveis como as que se desenham é algo que não se permitem nem os animais.