Às vezes estranha o acostumar-se aos heróis…

Às vezes estranha o acostumar-se aos heróis da grande literatura, e então voltar os olhos para o exemplo real de uma vida comum fracassada. Na grande literatura, nem sempre o herói se aventura como quer Joseph Campbell, mas este não erra ao notar que ele tende a evoluir e aprender. É, aliás, o efeito que se espera dos anos no curso de uma vida. Então observamos o exemplo real daquele que parece não ter aprendido nada, não ter amadurecido nada; aquele que tropeçou jovem e, velho, continua a tropeçar. É estranho porque parece um desperdício quase insultuoso, uma recusa ferrenha, inumana, de tomar lições da experiência. Esse é o único fracasso pleno: não tirar proveito daquilo que se viveu.

O pressentimento do perigo

Diz o caçador Jim Corbett, em Man-Eaters of Kumaon:

I have made mention elsewhere of the sense that warns us of impending danger, and will not labour the subject further beyond stating that this sense is a very real one and that I do not know, and therefore cannot explain, what brings it into operation. On this occasion I had neither heard nor seen the tigress, nor had I received any indication from bird or beast of her presence and yet I knew, without any shadow of doubt, that she was lying up for me among the rocks.

E de novo:

The premonition of impending danger is too well known and established a fact to need any comment. For three or four minutes I had stood perfectly still with no thought of danger and then all at once I became aware that the tiger was looking at me at a very short range. The same sense that had conveyed the feeling of impending danger to me had evidently operated in the same way on the tiger and awakened him from his sleep.

Agora quem diz é o montanhista Joe Simpson, em Touching the Void:

As I climbed up to rejoin his tracks it occurred to me that I had felt a moment of anxiety only minutes before Simon had fallen. I had noticed this in the past and always wondered about it. There had been no good reason for the sudden stab of worry.

E de novo:

I wanted to sleep. I couldn’t be bothered to move any more. I was warm enough sleeping on the snow. The storm would cover me like a husky and keep me warm. I nearly slept, dozing fitfully, edging close to the dark comfort of sleep, but the wind kept waking me. I tried to ignore the voice, which urged me to move, but couldn’t because the other voices had gone. I couldn’t lose the voice in daydreams. ‘…don’t sleep, don’t sleep, not here. Keep going. Find a slope and dig a snow hole… don’t sleep.’

Uma vez experimentado, a realidade de semelhante pressentimento é colocada fora de questão. E não seria exagero afirmar que aventureiros como os supracitados dependem dele e nele confiam. Os exemplos poderiam prosseguir indefinidamente… Em situações extremas, por algum motivo, algo ocorre. Se a captação do perigo é dependente da absorção total no ambiente, não se pode dizer. Mas algo se passa, e a percepção grita mesmo sem o amparo dos sentidos “tradicionais”. De muitas maneiras, o homem é bem mais interessante e complexo do que se costuma supor…

Poucas coisas satisfazem tanto quanto…

Poucas coisas satisfazem tanto quanto adquirir uma nova habilidade, isto é, quanto capacitar-se a fazer algo que antes não se conseguia. A sensação é assaz gratificante, e às vezes prova equivocado o juízo que se fazia das possibilidades. É difícil dimensionar as capacidades humanas: o corpo e a mente costumam suportar mais do que se supõe. Com prática e determinação, prodígios ocorrem; e dificilmente se iguala a satisfação de olhar para trás e ver que, por esforço próprio, foi possível tornar-se capaz.

Em toda parte, não há elemento mais corruptor…

Em toda parte, não há elemento mais corruptor que essa sede de influência, de reconhecimento, de poder. E a corrupção que consuma, é consumada lenta, por vezes imperceptivelmente, a partir de um desejo até natural, que brota como impulsionado por circunstâncias inevitáveis, açulado por elas de maneira muito traiçoeira, porque a princípio não esbarra em entraves morais. Então, dado o primeiro passo, admitido o anseio novo, vai-se por uma senda quase sempre sem volta, no meio da qual já não se reconhece o caráter prévio, engolido pela moléstia do querer. As relações, novas e velhas, só se dão envenenadas; o interesse predomina e a confiança passa a inexistir. Em verdade, acaba justificado que uma criatura como essa encare o mundo como mau.