Quando nos deparamos com aquele que se gaba de algo que deveria envergonhá-lo, vemos o quão facilmente a esperteza se converte em vício. A ter semelhante qualidade, é melhor ser sempre enganado! Sem dúvida, não há constrangimento moral em ser vítima, nem em dar crédito àquele que não o merece. Se se perde algo, este algo vai-se sem deixar marcas na consciência, e o tempo jamais cobra o preço do remorso. Aquele que ganha, porém, perceberá que o que ganhou era pouco, e será mais feliz na medida em que a vileza que nutre não dê espaço para objeções — a felicidade plena, como se vê, só sendo possível a um animal.
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Impressiona a capacidade humana…
Impressiona a capacidade humana de se livrar da impressão fortíssima causada pela morte. Quando experimentada, esta parece decisiva, parece haver a certeza de que sua vivacidade jamais deixará a memória. Mas, então, o tempo passa, e chega o dia em que é como se não tivesse ocorrido, e vive-se tranquilamente ignorando o que outrora pareceu uma lição. Esquecer é uma dádiva; mas apenas parcialmente: lembrar-se, às vezes, é garantir que o passado não tenha sido em vão.
Não há uma única notícia de jornal…
Não há uma única notícia de jornal que mereça ser impressa e guardada para o futuro, como se faz com toda a literatura de valor. Logo, como é possível que tantos leiam, e tantos se convençam da falsa importância atribuída aos jornais? O jornalismo nunca aproxima o leitor de nenhuma questão verdadeiramente importante. O que faz é afastá-lo de sua individualidade e metê-lo em questões absolutamente fora de seu campo de ação, que não interferem em sua vida, e quando interferem, é o tipo de interferência contra a qual nada se pode fazer. Uma contribuição prática, portanto, nula; para não dizer que, o mais das vezes, o jornalismo não inspira senão sentimentos ruins. O melhor é sempre desprezá-lo. E, dependendo dele para o próprio sustento, é largá-lo e buscar outra profissão. À parte isso, existe o bom jornalista. Mas o bom jornalista é um homem doente que não consegue largar o jornalismo porque padece de tê-lo como vocação.
É impressionante notar como algo…
É impressionante notar como algo que se crê prazeroso deixa imediatamente de sê-lo quando convertido em profissão. É como se, apenas agora, os aspectos desagradáveis da atividade se fizessem pesar. O bom resultado, antes um prêmio, após tornar-se necessário deixa de contentar. E a seriedade que passa a envolver o processo acaba por torná-lo desgastante. Nos raros casos em que tal não se passa, é prudente dar graças, pois verdadeiramente se nasceu para exercer a ocupação.