Disse algum sábio oriental que a escrita prejudica a memória, e que esta, se não regularmente exercitada, prejudica o conhecer. Tal foi dito a fim de justificar o conhecimento oralmente transmitido e apenas mentalmente registrado. É possível que aí esteja uma grande verdade. Contudo, há ressalvas a se fazer. Em primeiro lugar, a oralidade pressupõe um falante e um ouvinte; no mais das vezes, um mestre e um discípulo. O mestre faz bem a si mesmo ensinando, isto é, exercita a própria memória no ato de ensinar. Já o discípulo o escuta, e não o faz senão objetivando tornar-se um mestre futuramente. Presume-se, também, que o mestre tenha tido um mestre. E daí vemos que tal afirmativa, embora possa ser verdadeira, pressupõe uma tradição, um ambiente, noutras palavras, inexistente para a maioria dos mortais. Supondo que não haja o discípulo, que faria o mestre para exercitar a memória? Não é certo que discursar para as paredes seja a melhor opção.
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Quando o estilo se impõe e agrada…
Quando o estilo se impõe e agrada, pode-se tolerar um passo que não diga nada importante. Em alguns casos, tolera-se mais, muito mais que um único passo, a depender da qualidade do autor. É interessante observá-lo porque é isso a prova de que o prazer estético, sozinho, pode sustentar o interesse. Assim que a poesia metrificada, estética e gramaticalmente bem construída, leva uma vantagem óbvia e pode, apenas pelo esmero da técnica, nos agradar. Há muitos versos que não têm muito além disso, e ainda assim parece-nos suficiente e parecem-nos tais versos bons. O mesmo vale para a prosa, e não são raros os exemplos em que poderíamos dizer que, em suma, o estilo é o autor.
Talvez seja mais ilusória que real…
Talvez seja mais ilusória que real a importância desse quê misterioso, desse algo por dizer recomendado por Poe e tão utilizado em literatura. Quer dizer: pouco importa se a mensagem de uma obra é apresentada direta ou obliquamente, o que importa é quanto ela impacta e quanto é capaz de fazer pensar. É verdade que, quando se encerra uma obra deixando a conclusão sob penumbra, parece o autor instigar-nos a esboçá-la por nós mesmos. É também comum que fiquemos com a sensação de que tal desfecho encerre algo profundo, ainda que seja apenas uma impressão. Contudo, há obras cuja mensagem nos impacta com tamanha violência que se nos entranha para nunca mais nos deixar — e estas, muitas vezes, perderiam a força caso não dissessem o que dizem de maneira que nos é impossível mal interpretar.
Não há maturidade nem experiência capazes…
Não há maturidade nem experiência capazes de eliminar a pungente frustração quando nos deparamos com um erro — exatamente isso, um erro — numa obra literária já escrita e já revisada por nós. Que dizer? Algo parece certo: eles estão lá, e estarão sempre lá. É uma sensação verdadeiramente indescritível a de encontrar, ali, a prova irrefutável da displicência, e então sentir a mão coçar como a de Kafka para acender uma grande fogueira e lá atirar o trabalho malfeito. Não importa quanto tempo passe, nem quanto se aprenda: não é possível vencer, nem o erro, nem a frustração.