Enquanto, na prosa, a pontuação tem…

Enquanto, na prosa, a pontuação tem como uma de suas funções primordiais a demarcação lógica do discurso, na poesia esta função parece sempre subordinada à estética dos versos. Há situações em que, instintivamente, percebe-se o verso a repelir a lógica e pedir que corra livre ou que se ignore aquilo que, na prosa, seria obrigatório. Aos que fazem versos e respeitam a língua com a qual trabalham, o mais difícil parece ser dissuadir o cérebro de suas implicâncias, e convencê-lo de que, em poesia, às vezes é proveitoso deixar de lado as exigências do discurso racional.

O mais desafiador exercício de concentração e paciência

O mais desafiador exercício de concentração e paciência é, sem dúvida, o escrever rodeado de barulho. Encadear raciocínios com a mente invadida por ruídos exteriores é como colocar um gravador de som no meio de um campo de batalha e, empunhando um violino, atribuir-se a missão de gravar uma música completa. Há, é verdade, ruídos e ruídos. Nenhum deles parece superar a força da voz humana, em suas infinitas manifestações. As palavras, no cérebro que raciocina, parecem invadi-lo e se interporem no espaço que separa os vocábulos do projeto de frase, inviabilizando qualquer formação lógica sólida, exigindo que o esforço se recomece e se recomece de novo. Enfim, é um exercício de resultado quase sempre inútil; exceto pelo fato de que aquele que o pratica com regularidade dificilmente se irritará em outras ocasiões.

Um extraordinário acelerador da consciência

Diz Brodsky, em tradução portuguesa de um de seus discursos na Suécia:

Aquele que escreve um poema o faz, acima de tudo, porque escrever versos é um extraordinário acelerador da consciência, do pensamento, da compreensão do universo. Aquele que experimenta essa aceleração uma vez não consegue mais abandonar a chance de repetir essa experiência, caindo na dependência do processo, como outros o fazem com drogas e álcool. Aquele que se encontra nesse tipo de dependência da linguagem é, acredito eu, o que chamamos de poeta.

É realmente indescritível a sensação de escrever um poema e, em seguida, analisar o processo. Da ideia ao verso finalizado transcorrem etapas que exigem, primeiramente, a tomada de consciência — para dizer como Brodsky — da ideia, a sua visualização precisa; em seguida, é preciso expressá-la, materializá-la na linguagem. O resultado desta realização é, para o poeta, a assimilação e o domínio daquilo que, anteriormente, não era senão algo opaco. Há casos, porém, que o resultado é ainda mais impressionante, e a ideia desenvolve-se de maneira inesperada: é como se o poeta, à medida que avança no poema, avançasse no próprio pensamento, como se desbravasse o desconhecido e, no fim do processo, aumentasse o escopo de sua percepção.

É preciso escrever regularmente…

É preciso escrever regularmente para que o hábito automatize a reafirmação do voto e o espírito não sucumba aos perigosíssimos lapsos nos quais a literatura parece insuficiente e a motivação se esvai ante a aflição de escrever ou, antes, ante a aflição de existir. O escritor não pode permitir que a limitação da vida transmita a ilusão de que a literatura é também limitada. É preciso que enxergue nesta justamente o que aquela carece; portanto, transformando a ocupação não somente num refúgio, mas na solução do problema de existir.