A superioridade de Tolstói e Dostoiévski sobre os demais romancistas não é a técnica e nada tem que ver com a técnica, o que demonstra que, em literatura, ela não prepondera sobre a motivação artística, esta sim a essência de uma obra. O que se nota nos romances de ambos é que, lendo-os, sentimo-nos inteiramente absorvidos pela narrativa e uma infinidade de ideias movimentam-se em nossa mente, mas nunca aquelas relacionadas aos artifícios da narração, que passam como despercebidos, a menos que nos proponhamos a exclusivamente analisá-los. São ambos superiores porque superiores são suas motivações.
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A poesia silábico-acentual
No que tange à técnica poética portuguesa, a poesia silábico-acentual é e sempre será a mais difícil e mais requintada, não importando quantas inovações mais apareçam nem quão mais rara ela se torne. Sua dificuldade, só poderá compreendê-la aquele que se arrisque a fazer um punhado de versos observando-lhe as exigências que, se tornam o trabalho consideravelmente moroso, também entregam um resultado especial. Muito mais conveniente, sem dúvida, é deixá-la de lado e “inovar”. Mas quando se lhe vislumbra as possibilidades belíssimas, entende-se que, em português, não há técnica mais consistente e refinada, cuja boa aplicação eleva sobremaneira a força expressiva e a harmonia de uma composição.
No fenômeno da psicografia…
No fenômeno da psicografia, nada impressiona tanto quanto a indiscutível qualidade literária de alguns textos, que justifica inteiramente o processo. A inteligência que se expressa com elegância e clareza prova-se, pela forma, merecedora de atenção. A expressão a sustenta e reclama o direito de apreciação zelosa, isenta de prejulgamentos, tal como se deve fazer com todo aquele cuja lucidez patenteia haver, no mínimo, ela mesma a se transmitir.
A língua entranha-se no próprio pensamento
Nunca escrevi uma linha em inglês, entre as centenas de milhares já saídas de minha cabeça, que não fosse a tradução de um pensamento concebido em português. Nem mesmo num e-mail. E imaginar a batalha travada por tantos escritores do último século, que adotaram voluntariamente uma nova língua para criar literatura… Não se pode conceber um escritor para o qual a língua se limite a um veículo de expressão. A língua entranha-se no próprio pensamento, que através dela se constrói. A estrutura lógica do pensamento não se calca senão na estrutura sintática da língua em que é modelado; são ambas inseparáveis, não podendo a primeira medrar sem a segunda. As palavras, em diferentes línguas, sucedem-se e organizam-se de maneiras distintas; uma evidência não de uma diferença formal, mas de uma distinção entre o gênio dos homens que nelas se desenvolvem. Alterá-lo, já velho, parece um choque de tremendas proporções.