É preciso escrever regularmente…

É preciso escrever regularmente para que o hábito automatize a reafirmação do voto e o espírito não sucumba aos perigosíssimos lapsos nos quais a literatura parece insuficiente e a motivação se esvai ante a aflição de escrever ou, antes, ante a aflição de existir. O escritor não pode permitir que a limitação da vida transmita a ilusão de que a literatura é também limitada. É preciso que enxergue nesta justamente o que aquela carece; portanto, transformando a ocupação não somente num refúgio, mas na solução do problema de existir.

Se um povo não possuísse nenhum distintivo…

Se um povo não possuísse nenhum distintivo além da linguagem, esta já seria suficiente para dar-lhe uma literatura inteiramente original, ainda que se limitasse refazer o já feito em outros idiomas. Quer dizer: se a linguagem é autêntica, nunca se imita, porque nela sempre haverá algo de singular. Mas além disso: a maior literatura será aquela que englobar, no próprio idioma, a maior gama de modelos e temáticas, e portanto é mais que conveniente, mas necessário repensar na própria língua o que já foi pensado noutras, recriar o já criado dotando-o, pela linguagem, de cores autenticamente vernáculas: só assim se constrói uma tradição literária vigorosa e de valor universal.

Se é necessário que o escritor estabeleça…

Se é necessário que o escritor estabeleça um elo com seu tempo, ele não pode fazê-lo senão o vivendo. É inevitável… por mais que se tente, não se pode sentir um tempo passado ou futuro como o sentiram e o sentirão aqueles que nele viveram ou hão de viver. Por isso, só se pode ter de um tempo longínquo uma noção, e uma noção inteiramente dependente do grau com que o escritor o sentiu na carne para então nos descrever. Desta forma, viver o próprio tempo pode ser pelo escritor encarado como uma missão em benefício daqueles que ainda não nasceram, e portanto é perfeitamente possível, e até necessário, que ele encontre sentido naquilo que pareça desagradável e importuno: só assim ele poderá ser útil e imprescindível àqueles que virão.

Se algo é publicado, será lido

Se algo é publicado, será lido: é esta uma realidade inevitável. Mas é bom pensar que tal nunca ocorrerá, pois assim se pode criar com tranquilidade e independência. Há algo de belo e solene neste silêncio que acompanha a criação e, o mais das vezes, a recepção de uma obra. É um silêncio ilusório, mas extremamente estimulante, e se fez presente na maior parte das grandes obras já concebidas. Se pensar no natural rompimento deste encanto, o artista julgará melhor jamais publicar nada, e por isso não deve fazê-lo: deve permitir-se iludir, e aproveitar a calmaria como se fosse garantida e eterna.