A ação é sempre perturbadora do espírito. Por isso a paz é fruto da inércia, da monotonia e do silêncio — palavras ausentes no vocabulário do homem de ação. A necessidade de agir, pois, é o que faz com que o mundo tome traços de inferno. Agindo, não há paz possível, e é impossível o mundo sem ação. Segue, portanto, que a perturbação, o tormento constituem a substância íntima do mundo, e sábio é aquele que se lhe retira. Nada que não tenha sido diagnosticado há milhares de anos atrás…
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Um país culturalmente relevante
Um país, para que seja culturalmente relevante, necessita de ao menos um símbolo de orgulho nacional. Do contrário, arrastar-se-á pelo tempo em meio a um deserto cultural intransponível e, ainda que esparsas lhe surjam algumas manifestações culturais valorosas, estas jamais terão papel relevante e transformador. Se não enxerga no passado algo que o une e o distingue, um povo está para sempre condenado à insignificância cultural.
O homem atinge o ápice de sua vocação humorística na revolta
O homem atinge o ápice de sua vocação humorística na revolta. O melhor palhaço é aquele que melhor simula a irritação. Seja do absurdo dos mesquinhos eventos cotidianos, seja da impotência frente ao universo, a revolta brota-lhe e expõe essencialmente o ridículo de sua condição. Todo humor surge de um contraste: a revolta suscita a gargalhada porque penosa e absolutamente inútil. Digo e enveredo pelo inevitável: há algo mais divertido que blasfêmias? Um inseto indignado ante um deus… Esperneia, brada, frita-lhe os nervos em vão. Em pleno furor, recorre à ofensa arriscando-se ao suplício eterno. Pelo prazer de julgar arranhar, num átimo, a reputação de um ser infinitamente superior, coloca-se, vulnerável, como candidato a alvo de uma ira terrível. Já disseram que toda blasfêmia é, no fundo, uma manifestação de dignidade. Talvez isso esteja certo… O risível é nem por isso de algo servir.
Preconceito inevitável
Meu preconceito por sistemas filosóficos beira o irracional. Tenho, de antemão, todos os argumentos contrários à aplicabilidade de qualquer templo erigido ao raciocínio. A lógica carece de vida, carece do real. Isolar o raciocínio, tomá-lo como entidade autônoma é ceifar-lhe a utilidade, o importante papel que exerce dentro de uma conjuntura subjetiva e complexa. Reduzir a realidade a uma esquematização lógica, subjugá-la ao racional, dotá-la de ordem, encadeamento, justificativa: estes parecem-me os erros essenciais de qualquer sistema. Só pode um sistema ser assertivo quando versa sobre si mesmo ou sobre outros sistemas, quer dizer, quando diverte-se em seu mundo particular. Enquanto analista da realidade, infelizmente, é inútil: a realidade ri de qualquer sistematização.