O homem assume-se injusto, grosseiro e mau-caráter, mas nunca pouco inteligente. Essa é-lhe a única humilhação intolerável. Mesmo o mais rasteiro dos ignorantes — e este principalmente — acha-se inteligente ou, no mínimo, esperto. Faça-se o mundo de auditório e solicite-se que levantem a mão apenas as bestas: nem uma única mão se levantará. O homem — ele e sua vaidade — não admite essa possibilidade. Do contrário, seria nivelar-se conscientemente a um animal — algo inadmissível, e impossível quando lhe falta justamente a consciência.
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Desaparece sempre o encanto quando se conhece alguém em profundidade
Desaparece sempre o encanto quando se conhece alguém em profundidade. Por isso as relações não perduram agradáveis senão quando há distância. Aquele que admira há de ter sempre em mente a fragilidade das admirações. Mata-se qualquer ídolo com uma investigação diligente, com um excesso de curiosidade que resulta sempre na violação mental da idealização. Do contato com o próximo tira-se proveito somente quando travado em doses homeopáticas.
O mais vistoso impacto da modernidade na filosofia
O mais vistoso impacto da modernidade na filosofia é que o grande filósofo deixou de ser o sábio, tornando-se o raciocinador. Filosofar em tempos modernos é, quando muito, criar conceitos, mas resume-se essencialmente em articular e desenvolver argumentos lógicos em redor de temas irrelevantes. O vocábulo “filósofo” não nos evoca em mente um pensador maduro, dotado de grande sabedoria, senão alguém interessado em sistematizações, em encadeamentos de conceitos abstratos — um tarado por definições. O filósofo moderno perdeu definitivamente a condição de que gozava na antiguidade, a de professor da vida: tornou-se um profissional do raciocínio, um arquiteto da lógica, e é incapaz de atuar como preceptor ou conselheiro. Conseguintemente, a filosofia perdeu o caráter prático: deixou de implicar numa conduta moral e numa postura ante a realidade. Isolada em seu universo, ela já nada tem a dizer sobre o mundo real.
Idealizam a esperança somente aqueles que jamais a miraram em plenitude
Idealizam a esperança somente aqueles que jamais a miraram em plenitude, que jamais lhe mediram os efeitos derradeiros. Machado, que a conhecia muito bem, classificou-a como a “erva daninha que come todas as outras plantas melhores”; os gregos tinham-na como o mais terrível de todos os males… Idealiza a esperança somente o que nunca lhe reparou com atenção as sequelas destrutivas, a ruína total em que frequentemente atira o esperançoso, turvando-lhe a faculdade do raciocínio, o senso do ridículo, incitando-o a tomar decisões estúpidas e irresponsáveis, que arriscam-no juntamente de quem lhe esteja em redor. O justo é que seja o esperançoso tratado qual criança, como alguém carente de que lhe digam os limites, o que se pode e o que não se pode fazer. É sempre perigoso que ele tenha em mãos instrumentos destinados a adultos sãos e maduros.