Objetivo: palavra inventada por homens

Penso nas concepções artísticas de Poe e Tolstói e, súbito, ponho-me a rir. De um lado, a construção de uma beleza suprema; doutro, a transmissão de um sentimento ao leitor. Objetivos: aí está a graça. Não sei por que, começo a pensar em arte e vem-me à mente o universo cego, representação máxima do acaso. Penso em tudo, como conjunto, e enxergo o nada, o céu vazio, a indiferença, a exterminação certa e a improbabilidade de um fim. “Objetivo” é palavra inventada por homens que, como homens, tende a perecer. Estrelas brilham por nada, uma galáxia imensa pode simplesmente sumir. E acabo refletindo sobre o antiquíssimo “esforço inútil”. A beleza se esconde na certeza da derrota? A misericórdia exige a queda? Se nada mais me interessa, por que exatamente tenho a arte como valorosa, indutora do sentido? Parece-me tudo, sempre, conduzir às mesmíssimas questões…

Todo livro deveria conter uma etiqueta colorida colada à capa

Quando imagino a postura de Cioran diante de um papel e comparo-a com a de alguns artífices do entretenimento consagrados como best-sellers, penso que todo livro deveria conter uma etiqueta colorida colada à capa a indicar se a obra é séria ou trata-se de diversão, passatempo, brincadeira — talvez uma carinha feliz cumpriria bem o papel para estas. A sinceridade é dotada de um potencial agressivo que ao marketing convém evitar a todo custo. Quem é que paga para ser agredido? Certamente não o público mainstream. E, no mais, a classificação seria útil para que o leitor soubesse de quem poderia pedir qualquer satisfação, a quem seria visto como cliente e, portanto, quem estaria verdadeiramente interessado em sua satisfação. Proveitoso e facílimo seria identificar quem publica pela fama e quem risca o papel percebendo-se a sangrar.

Aflição e revolta

Aflição e revolta: assim parece manifestar-se o espírito ao contrapor a sensação terminante de não pertencimento à necessidade obrigatória de pertencer a alguma coisa. Destacar-se do todo é uma impossibilidade, ainda que lhe esteja claríssimo o caráter incompatível da natureza — é preciso ser parte integrante, é preciso trabalhar por uma conciliação impossível! E assim o existir parece sempre redundar em conflito, em guerra aberta que não estimula senão sentimentos negativos. Entrada obrigatória, saída somente em fraqueza ou submissão. Deixar de falar é facílimo diante de fechar os olhos, domar as veias e anular as rajadas da mente…