É sempre tarde para fazer o que poderia ter sido feito antes, mas sempre possível livrar-se do peso de não ter tentado. Há barreiras para as quais a justificação é de praxe gratuita: se algo parece bom, que seja feito! O resto será experiência e aprendizado. A mente custa para se libertar de amarras antigas, mas os anos demonstram que nunca se arrepende quando se vence a resistência mental e se arrisca à novidade sinceramente desejada; mais do que isso: são atos deste tipo que frequentemente entram para a memória como as melhores decisões.
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Não há satisfação verdadeira até que o espírito…
Não há satisfação verdadeira até que o espírito aprenda a concentrar-se no pequeno, no acessível e no diário. A mente é traiçoeira porque, de olhos fechados, o ato não pesa e desconhece limites. Descuidando-se, vai-se facilmente para muito longe, nada se aprende e nada se faz. Há talvez prazer, certamente distração, mas ambos diáfanos, ambos desprovidos da densidade característica do real, a qual substancia o pequeno e gera frutos verdadeiros.
Escolher um caminho
Escolher um caminho é, sempre, não escolher todos os demais, e é isso que o torna especial. A escolha, pois, escolhe e abdica, e sustentá-la envolve tanto a valorização do caminho escolhido, como a aceitação do afastamento daqueles que se não escolheu. Muitos não o suportam, como também não suportam que viver é escolher. Porém, gostando-se ou não, deixar de escolher é também uma escolha, e colhe-se de todo modo os frutos desta decisão.
É preciso ter alguns fios brancos…
É preciso ter alguns fios brancos na cabeça para maravilhar-se de contínuo com a confluência inefável de fatores que concorrem aos lances determinantes de uma vida. Quando analisamos, por exemplo, as experiências catárticas tão marcantes na obra de Dostoiévski, percebemos que, conquanto descritas com máxima habilidade, conquanto transmitam fortemente uma ideia da complexidade que as envolve, é impossível ao escritor esgotá-las, é impossível que simplesmente as descreva completas. Porque elas aparecem como pontos para os quais convergem o indivíduo inteiro, sua mente e sua biografia, seus atos e suas omissões. E se há o trauma, se há a liberação, se há o renascimento, todos eles se apresentam concentrados, indissociáveis, como uma coisa só.