Há uma ironia divertida quando se nota…

Há uma ironia divertida quando se nota que o resultado da tentativa de se impor uma visão cientificista do mundo como a única aceitável tenha resultado num aumento exponencial de todo tipo de doutrina anticientífica. Os últimos dois séculos reviveram tudo quanto já se inventou de misticismo de norte a sul do planeta. E se algum deles ainda não deu o sinal de renascimento vigoroso, é questão de tempo. Tais áreas experimentam agora um avanço inédito, algumas delas após séculos de adormecimento. Que isso quer dizer? O óbvio: a ciência é incapaz de dizer uma frase que alimente o anseio de sentido do homem. Quanto mais se quer soberana, quanto mais tenta se impor, mais escancara a própria impotência e estimula que as almas carentes de sentido vão buscá-lo noutras bandas. Não falta muito para que comece a despertar um riso generalizado; aí, talvez, lembre-se do seu verdadeiro valor.

Os totalitarismos não são ideologias políticas

Os totalitarismos não são ideologias políticas, mas conluios de psicopatas que objetivam um poder só alcançado mediante a destruição massiva da consciência. Por isso alvejam, acima de tudo e com máxima violência, a dignidade humana, aquilo por onde esta se manifesta e aquilo de que se alimenta. Destarte só passam numa sociedade corrompida, cujos indivíduos abdicaram completamente do próprio valor. A dignidade nunca hesitará entre o totalitarismo e a cadeia, entre aquele e o fuzilamento. Contudo, há de se notar que a ela, salvo em raros casos, não é concedido escolher entre essas opções. A dignidade o mais das vezes se esvai à medida que o totalitarismo avança, e este, ardiloso que é, o faz paulatinamente, através de pequenos espólios, pequenos desmandos, de forma que não dê a entender que vagarosamente se impõe. Um passo de cada vez e, a cada êxito, um novo passo adiante. Assim que, em verdade, é essa uma guerra travada pelo indivíduo em pequenas batalhas, pequenas escolhas, cujo único resultado que deveras lhe importa — aquele sobre o qual tem controle — é corromper-se ou não.

A manhã é o período mais importante

A manhã é o período mais importante do dia. Produtiva ou improdutiva, feliz ou infeliz, seus efeitos contagiam e se alastram pelas horas seguintes, evidência de que ganha-se um dia pela manhã. Por isso, é prudente que neste período cumpra-se a tarefa mais importante do dia, vencendo-a o quanto antes para que a tarde seja contagiada desta satisfação. Fazer o contrário é agir contra si mesmo: protelando-se o mais importante, gera-se ansiedade; cumpri-lo ao fim do dia é permitir que o cansaço da jornada, caso não estimule um novo adiamento, prejudique a sua execução. Duzentos outros motivos recomendam as primeiras horas do dia como período em que as atividades que exijam maior concentração devem ser executadas e, por isso, talvez o maior segredo de uma rotina estimulante e satisfatória consiste no bom emprego da manhã.

O indivíduo comum só tomaria consciência…

O indivíduo comum só tomaria consciência da importância dos valores e condições que lhe foram legados caso pudesse sentir, na carne, tudo quanto foi sofrido pelos seus antepassados. Algo, pois, impossível. Poucas palavras são, por exemplo, tão secas como “liberdade” quando pronunciada em países livres. A semântica esconde o volume de sangue derramado para conquistá-la e, para que cidadãos livres a compreendessem, seria preciso que vivenciassem a sua ausência. O mesmo se dá em muitos outros casos, e disso percebemos que, quando a história e a educação lhe são inúteis, é ridículo falar neste tal “progresso”.