O conforto é estimulante da inércia, e do desconforto brota a necessidade de expressão. Tal é válido tanto a nível individual, como coletivo. Os grandes temas de todas as épocas são, exatamente, aquilo que mais as incomodava. E tão logo se afigura uma solução, seja pelo costume, seja pela mudança, notamo-lo pelo sumiço da temática na literatura. Aproximamo-nos do indivíduo e encontramos o mesmo: é precisamente do desconforto que nasce toda literatura autêntica. E se assim enxergamos, não há como deixar de mirar as dificuldades sob uma ótica inteiramente nova.
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Não há tarefa mais ingrata que ensinar…
Não há tarefa mais ingrata que ensinar àquele que não deseja aprender. O aprendizado tem de partir de um desejo, motivado, por sua vez, na consciência de uma necessidade. Do contrário, frustram-se o professor e o aluno. Todo ensino se deveria afigurar como um ato de generosidade e, consequentemente, ser estimulante da gratidão. Assim teríamos um professor satisfeito pela obra e um aluno ciente da importância da educação. Este, futuramente, poderia encontrar no próprio ensino o pagamento da dívida que contraíra ou, noutras palavras, ensinaria para expressar-lhe a gratidão. Deste ciclo depende toda educação verdadeira, e por ele notamos que esta é, fundamentalmente, um problema moral.
Por mais que se critique simplificações…
Por mais que se critique simplificações como o maniqueísmo, o mundo prático permite, e por vezes exige tais simplificações. Quando a boa-fé e a má-fé se confrontam, é fundamental, antes de tudo, denunciá-las. Assim, quando se nota que a maioria das disputas ideológicas resumem-se àquele confronto primário, é preciso atirar para longe as ideologias e ater-se àquilo que, de tudo, é o mais importante; do contrário, entra-se no jogo ardiloso da má-fé.
A virtude é simples e o vício complexo
Certamente já notaram que a virtude é simples e o vício complexo. A virtude não dissimula, e apresenta-se quase sempre banal, chocha, sem graça, o que frequentemente engana sobre sua natureza. Já o vício, é difícil que o enxerguemos, de pronto, como vício: comparando-o com a virtude, nele temos uma apresentação mais charmosa, mais instigante. A virtude é simples porque, para justificá-la, jamais se necessita mais que uma meia dúzia de palavras ou do imediato senso comum; já o vício vale-se de possibilidades mais sofisticadas do argumento, e sua dialética convence justamente pela sofisticação. A reflexão sobre tais qualidades parece sugerir o dualismo entre forma e conteúdo — e as conclusões que tiramos evidenciam, a contragosto, aquela que valorizamos mais.