A inveja é invencível

A inveja é invencível. Talvez, entre todos os sentimentos humanos, somente ela possua esse caráter absolutamente inflexível. Poder-se-ia observá-la sob duas óticas: a de quem a exercita, e a de quem a sofre. O invejoso é um escravo deste sentimento que, se não estimulado, surge e robustece espontaneamente. Ainda que queira vencê-lo, não pode sem uma desfiguração de si mesmo; portanto, o mais que pode fazer é empreender um combate contínuo, e nele prosseguir a despeito das derrotas. Já o invejado, isto é, o paciente da inveja, que lhe resta fazer? Este, sem dúvida, encontra-se ainda mais impotente diante do problema, e parece nenhuma ação que porventura empreenda capaz de anulá-lo. Valha-se do desprezo, uma solução talvez razoável, e não fará senão desviar-se do natural incômodo que experimenta; não vencendo jamais o agente. Em resumo: a diferença, em ambas as perspectivas, parece simplesmente se reduzir a duas posturas: a daqueles que incitam, e a daqueles que evitam a inveja; ficando evidente, em ambos os casos, uma diferença tão somente de caráter, não de resultados.

A vida só parece monótona a quem não lhe presta a devida atenção

A vida só parece monótona a quem não lhe presta a devida atenção. Basta registrá-la para percebê-lo, caso os olhos abertos não sejam suficientes ou a memória falha. Esta é uma verdade que impressiona quando constatada: subitamente, parecem fazer sentido muitas singularidades aparentemente banais do passado, que passaram como despercebidas. Então, fica muito difícil não tender a uma interpretação quase mística da realidade, posto que imenso esforço se faz necessário para negar conotações ocultas que revelam-se realidades infinitamente mais plausíveis ao raciocínio. Em suma: a monotonia, o mais das vezes, é mera desatenção.

No limiar entre covardia e coragem

É preciso ter uma frieza ofídica e valores muito sólidos para, numa situação extrema de risco iminente, refletir num átimo e tomar a decisão correta. Situações assim, em que o homem se encontra no limiar entre covardia e coragem, são frequentemente chaves de uma biografia e seus efeitos perduram por quanto tempo uma vida se estender. É como o caçador que, com o rifle descarregado, é surpreendido por um tigre faminto: o lance se impõe e não há evitá-lo; o olhar fixo na fera evidencia um movimento em falso ser a morte; e, com o coração disparado, tem de o homem decidir.

A liberdade de pensar

É verdade: nada parece tão intolerável e tão revoltante como a opressão que quer tirar do homem aquilo que talvez seja a única coisa realmente sua: a liberdade de pensar. Tal violência não é senão uma investida que, efetivada, resulta na anulação do próprio indivíduo. Um homem chicoteado, mutilado ou violado não perde, em nada, aquilo que lhe consiste a essência, portanto parecem estas agressões muito mais leves quando as confrontamos com a supressão de seu pensamento. Quer dizer: o homem, proibido de pensar livremente, perde-lhe a dimensão humana e aproxima-se de um animal.