Em certa medida, é proveitoso ao moralista capacitar-se a identificar a falsidade de longe, de forma que uma inflexão ou um olhar sejam suficientes reveladores de um caráter. Pragmaticamente, esta capacidade lhe será útil por toda a vida. Há, porém, um efeito colateral inevitável: percebendo-lhe a quase onipresença, tem de ou tolerá-la, ou afastar-se. Se aprendeu a detestá-la, se dela tomou uma repulsão invencível, descairá naquela rara prática hoje taxada de transtorno de personalidade, e ainda que, pelo motivo que seja, acabe cedendo à tortura que se lhe converterá o contato com o mundo, é somente naquela que encontrará a sua paz.
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As masmorras do pensamento
Um pensador independente preocupado com as finalidades últimas da existência tem de necessariamente alojar-se por um tempo nas masmorras do pensamento. E, então, estudá-las e conhecê-las. Alguns ali permanecem por toda a vida; mas parece, contudo, que chega o momento em que é preciso deixá-las e retornar ao ambiente prévio, como retornam sempre os heróis de suas jornadas: transformados e com algo a ensinar.
Talvez seja mais ilusória que real…
Talvez seja mais ilusória que real a importância desse quê misterioso, desse algo por dizer recomendado por Poe e tão utilizado em literatura. Quer dizer: pouco importa se a mensagem de uma obra é apresentada direta ou obliquamente, o que importa é quanto ela impacta e quanto é capaz de fazer pensar. É verdade que, quando se encerra uma obra deixando a conclusão sob penumbra, parece o autor instigar-nos a esboçá-la por nós mesmos. É também comum que fiquemos com a sensação de que tal desfecho encerre algo profundo, ainda que seja apenas uma impressão. Contudo, há obras cuja mensagem nos impacta com tamanha violência que se nos entranha para nunca mais nos deixar — e estas, muitas vezes, perderiam a força caso não dissessem o que dizem de maneira que nos é impossível mal interpretar.
Parece mesmo o riso consistir…
Parece mesmo o riso consistir na superior entre todas as manifestações últimas do espírito. Por isso, é válido e até necessário que haja um esforço consciente, em casos onde não se dê de forma espontânea, para que irrompa como uma vitória sobre tendências mais naturais e imediatas. A indignação e a tristeza são muitas vezes justificadas, mas jamais podem representar a superação das circunstâncias que as desencadearam. Se estimulam, é o máximo que podem fazer. A vitória sobre quaisquer circunstâncias implica um desprendimento que permite mirá-las e sorrir.