Na arte e na filosofia, a originalidade alcança o reconhecimento mais rapidamente que o valor. Na filosofia, porém, parecem as ideias originais garantirem a longevidade, e quanto mais originais forem, mais seguramente a garantem. O fenômeno é curioso, porque ocorre a despeito do valor da ideia. Esta, se original e ainda que absurda, ainda que mil vezes refutada, parece merecer sempre a generosidade de uma citação. Já na arte, embora a originalidade faça barulho, desgasta-se invariavelmente com o tempo. Na arte, uma obra só perdura se, para além da originalidade, guardar alguma coisa de valor.
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A mudança pode ser melhor compreendida…
A mudança pode ser melhor compreendida quando se pensa não em “mudança”, mas na morte de um estado para o nascimento de outro novo. Quando se muda, o que foi deixa de ser e dá lugar a algo diferente, quer melhor, quer pior. O estado anterior, porém, torna-se passado. Assim, é prudente ter cautela sempre que se pensa em mudar algo que agrada ou satisfaz. Mudar algo bom é destruí-lo, e nem sempre o resultado da mudança será capaz de satisfazer.
Despegar-se do mundo não significa anular…
Despegar-se do mundo não significa anular quaisquer expectativas mundanas, mas adotar uma postura impassível diante daquilo que sucede. Esperar que uma boa ação dê bons frutos é natural e até estimulante; planejar e agir conforme um planejamento na esperança de que este tenha êxito é, simultaneamente, valorizar o tempo e o próprio ser. Bem diferente é o caso daquele cuja expectativa não estimula nem dignifica o ato, e cujo existir resume-se a uma ânsia descontrolada que tem no mundo, e não no ato, os parâmetros para a própria realização.
Seria interessante que a filosofia retornasse…
Senão sempre, certamente hoje seria interessante que a filosofia retornasse aos primórdios como antídoto à própria deturpação. Para ensiná-la, seria melhor fingir que nada nunca foi escrito e expor conceitos como se o estivessem fazendo pela primeira vez. O professor, então, ensinaria ao ar livre com os alunos sentados em roda, e quando dissesse “ato”, mostraria precisamente o significado desta palavra, de forma que, para o resto da vida, os discípulos tivessem em mente o ato real presenciado, e não cedessem à tentação de aplicar tal palavra em um sentido que se descolasse daquele que o mestre fê-los presenciar. E assim para todas as palavras importantes. É sempre proveitoso garantir a ciência de uma realidade patente para a qual deve se voltar os olhos e sem a qual o raciocínio é um desperdício.