Há, como diz Thoreau, um momento em que a honra reclama a desobediência civil intransigente, a despeito de a punição para tal comportamento ser a cadeia ou a forca. Esta coisa chamada democracia talvez resuma-lhe o valor em ter substituído tiranias declaradas ou, melhor dizendo, em ter o conhecimento destas últimas tornado “democratas” muitos homens de valor. Então vemos que, na prática, a tirania não fez senão mudar de nome. É impossível não pensar em Kafka quando confrontamos a tal democracia com o indivíduo solitário. Se pensamos, por exemplo, no imenso poder opressivo da máquina do Estado ou, mais especificamente, no dos iluminados de toga, que fazem cumprir quanto quiserem, vemos do outro lado um nada de joelhos, amarrado e sob ameaça dupla do chicote e da mordaça. Porém, agora, num misto de enredo kafkiano e nuances de Orwell e Huxley, a opressão é entregue em embalagens tão afáveis quanto falsas. Compreendê-lo e aceitá-lo de bom grado é atirar no lixo a honra e a faculdade de pensar.
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Há uma tensão que precede momentos sabidos “importantes”…
Há uma tensão que precede momentos sabidos “importantes” que não somente perturba o equilíbrio mental, mas acentua a propensão a atos súbitos e radicais. É como se esta apreensão deslocasse o discernimento e colocasse a mente num estado de alerta que se assemelha ao do soldado em pleno campo de guerra, sempre à beira de um ímpeto violento. Assim que além de ser justa toda cautela ao experimentá-la, mais importante é atenção para, notando-a noutras pessoas, não ser estúpido o bastante para atiçá-la.
Tradições e crise
Já foi notado, e com sabedoria, que em épocas de crise não resta a um povo senão apegar-se ao passado. No desespero da incerteza escancarada pela crise, emerge a tradição como um porto seguro, e assim aquela é vencida tanto mais facilmente quanto mais sólido for o passado de um povo, quanto mais estiver ele entranhado e presente no estágio atual. Disto é evidente que há nações mais e menos vulneráveis; impressiona, porém, quando notamos que as ditas menos vulneráveis, ainda que por um curto período, convertam-se na negação daquilo que sempre foram, parecendo romper com o elo histórico que as define. Automaticamente pensamos: e então, que será? Mas é curioso notar que, o mais das vezes, por conjunturas que talvez escapem ao raciocínio, surgem as tradições — sempre elas — revigoradas, e acabam como salvadoras de um futuro que parecia resumir-se no caos.
“O que dá ao homem um mínimo de unidade interior…”
Há razão quando Nelson diz que “o que dá ao homem um mínimo de unidade interior é a soma de suas obsessões”. Com o tempo, vão elas se extremando e como que se firmando no espírito até um ponto em que já se não pode demovê-las. Tomado em conjunto, é o espírito sintetizado por um misto de suas manifestações mais frequentes e mais intensas, qualidades correntes nas obsessões. A verdade é que há inclinações das quais, mesmo que tente, o espírito não se desvia, como se algo forçasse-o repetidas vezes a assumir aquilo que lhe é inato, a usar adequadamente as lentes que possui. Então vemos que o mesmo que para alguns é irrelevante e dispensável exerce noutros atração irresistível. Obsessões… a nível individual, o melhor é logo aceitá-las.