A personalidade só floresce no deserto

De Nietzsche:

Estando entre muitos, vivo como muitos e não penso como eu; após algum tempo, é como se me quisessem banir de mim mesmo e roubar-me a alma — e aborreço-me com todos e receio a todos. Então o deserto me é necessário, para ficar novamente bom.

A personalidade só floresce no deserto e não resiste a muito tempo de contato coletivo, o qual não faz senão estrangulá-la. É como uma tortura ao indivíduo consciente de si, habituado a viver como pede-lhe o íntimo, fazendo da própria vida uma realização interior o encontrar-se coagido pelo meio, que o impele a negar-se posto que representa a antítese da singularidade que o define. Prezando-se, não deve ele permitir-se mais que doses homeopáticas de contato com os homens, sempre atento para que estas não lhe contaminem a rotina e sabendo que, afinal, o que mais tem a ganhar com fazê-lo é o topar-se repetidamente com os motivos que justificam e exigem a afirmação do próprio voto.

É realmente prazeroso encontrar em autores conclusões…

É realmente prazeroso encontrar em autores conclusões a que chegamos previamente e por conta própria. Nada, porém, se compara a encontrá-las contrárias às nossas quando, se não refutam-nos por completo, mostram-se igualmente razoáveis. No primeiro caso, não nos alegramos senão por vaidade; no segundo, efetivamente crescemos. Há de se admitir, porém, que é este um prazer raro, dificilmente inato, e mais frequentemente fruto de um esforço contínuo, de uma educação da mente para que aceite o contraditório e compreenda a realidade como ambígua e multifacetada — algo que pouquíssimos espíritos se dispõem a fazer.

A investigação da origem das ideologias políticas…

Embora seja um tema de quinta categoria, a investigação da origem das ideologias políticas que correm na boca das massas ensina um bocado sobre a corrupção moral do homem. A perversidade e o cinismo daqueles que parem ideologias é de espantar o mais calejado dos moralistas. Tarados por controle, especialistas na eficacíssima ciência da mentira, despojaram a política de qualquer moralidade e a transformaram na simples arte da maquinação. Surpreende vê-los, em absoluta desfaçatez, apregoando narrativas falsas a revestir os mais vis interesses e que efetivamente condenam à miséria aqueles aos quais pedem — e conseguem! — apoio. É uma depravação sem limites. Instrutiva, porém, posto ensina o quão baixo o homem pode chegar.

A intolerância aos pequenos erros…

A intolerância aos pequenos erros e pequenos defeitos conduz necessariamente ao isolamento. O mundo, se levado muito a sério, trava guerra declarada contra o espírito intransigente. Tal guerra não objetiva senão deixar claro: aceita-se o mundo como é, ou esmurra-se eternamente paredes. E as decepções que se empilham, as expectativas que baldam seguidamente, a perfeição que se mostra sempre fantasiosa, tudo isso corrói o espírito e poderia ser evitado. O melhor, sem dúvida, é nada esperar.