É realmente prazeroso encontrar em autores conclusões…

É realmente prazeroso encontrar em autores conclusões a que chegamos previamente e por conta própria. Nada, porém, se compara a encontrá-las contrárias às nossas quando, se não refutam-nos por completo, mostram-se igualmente razoáveis. No primeiro caso, não nos alegramos senão por vaidade; no segundo, efetivamente crescemos. Há de se admitir, porém, que é este um prazer raro, dificilmente inato, e mais frequentemente fruto de um esforço contínuo, de uma educação da mente para que aceite o contraditório e compreenda a realidade como ambígua e multifacetada — algo que pouquíssimos espíritos se dispõem a fazer.

A investigação da origem das ideologias políticas…

Embora seja um tema de quinta categoria, a investigação da origem das ideologias políticas que correm na boca das massas ensina um bocado sobre a corrupção moral do homem. A perversidade e o cinismo daqueles que parem ideologias é de espantar o mais calejado dos moralistas. Tarados por controle, especialistas na eficacíssima ciência da mentira, despojaram a política de qualquer moralidade e a transformaram na simples arte da maquinação. Surpreende vê-los, em absoluta desfaçatez, apregoando narrativas falsas a revestir os mais vis interesses e que efetivamente condenam à miséria aqueles aos quais pedem — e conseguem! — apoio. É uma depravação sem limites. Instrutiva, porém, posto ensina o quão baixo o homem pode chegar.

A intolerância aos pequenos erros…

A intolerância aos pequenos erros e pequenos defeitos conduz necessariamente ao isolamento. O mundo, se levado muito a sério, trava guerra declarada contra o espírito intransigente. Tal guerra não objetiva senão deixar claro: aceita-se o mundo como é, ou esmurra-se eternamente paredes. E as decepções que se empilham, as expectativas que baldam seguidamente, a perfeição que se mostra sempre fantasiosa, tudo isso corrói o espírito e poderia ser evitado. O melhor, sem dúvida, é nada esperar.

Sinceridade inconveniente

De Pessoa:

Nada me pesa tanto no desgosto como as palavras sociais de moral. Já a palavra “dever” é para mim desagradável como um intruso. Mas os termos “dever cívico”, “solidariedade”, “humanitarismo”, e outros da mesma estirpe, repugnam-me como porcarias que despejassem sobre mim de janelas. Sinto-me ofendido com a suposição, que alguém porventura faça, de que essas expressões têm que ver comigo, de que lhes encontro, não só uma valia, mas sequer um sentido.

Como é deliciosa essa sinceridade inconveniente! Há trechos de Fernando Pessoa que, publicados hoje, pô-lo-iam na cadeia. Mas como insulta essa noção estúpida de que naturezas inteiramente diferentes são semelhantes! Se ainda se limitasse a uma noção… mas o que há é uma imposição de valores, uma exigência feroz dos homens inferiores de que todos lhe sejam congêneres, algo inaceitável para um espírito superior. Por mais energicamente que reivindiquem e apregoem essa paridade fantasiosa, por mais que a vitória seja unanimemente cantada, haverá sempre um contraste de interesses insuperável. Bradem, vociferem, castiguem, o que for!, nada fará dissipar o desprezo que lhes será sempre direcionado.