O postulado a partir do qual brota o grosso da investigação científica, isto é, o materialismo, não é senão uma hipótese, e talvez uma hipótese redondamente incorreta. Partir da premissa de que é da matéria que derivam todos os fenômenos observáveis pode ser, simplesmente, partir de uma premissa falsa, posto que não há comprovação nenhuma para tal. Assim que, no sentido que se aplica para o termo, a investigação científica é quase sempre apoiada numa premissa anticientífica — algo, é verdade, necessário, mas que deveria ser motivo suficiente para que os mais fanáticos se enchessem daquela humildade que já os não parece nortear.
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Se grande parte da personalidade é composta…
Se grande parte da personalidade é composta de traços involuntários, ou melhor, de traços que se estabelecem pelo hábito, quanto mais se vive, mais a personalidade representa e escancara o indivíduo em sua essência. Assim, não é exagero afirmar que, num idoso, a personalidade talvez lhe resuma a vida. É por isso que a generosidade e a simplicidade são encantadoras quando se manifestam espontâneas e sinceras numa natureza intelectualmente refinada. Por elas, temos o retrato do indivíduo: sua postura evidencia o grau do seu mérito e, a menos que estejamos cegos a ponto de não notá-lo, ficamos inteiramente preenchidos de um sentimento de admiração. Quanto à personalidade, de fato, há façanhas só possíveis na velhice, quando a virtude se cristaliza como fruto da experiência de uma vida inteira, e aí parecem-nos enfim brilhar como pérolas aqueles enigmáticos para quês.
Será um belo dia aquele em que a ciência…
Será um belo dia aquele em que a ciência ocidental admitirá a validade das pseudociências transmitidas, de geração para geração, há muitos séculos no oriente. Será um duríssimo golpe na presunção resultante do avanço da técnica, e provavelmente fará com que se estabeleça uma nova — e talvez muito velha — postura para com o desconhecido e para com o irracional. Será, enfim, um retorno àquela humildade sem a qual o homem é inapto a perceber a justa medida das coisas.
É sempre comovente quando notamos…
É sempre comovente quando notamos o nascimento de um espírito deslocado, seja no tempo ou no espaço. Quando o observamos, distanciados, ficamos com a sensação de uma total injustiça, de uma pena excessiva e injustificada por um crime não cometido, de uma tortura que só parece obstruí-lo senão puxá-lo para trás. E comove notar que um pouco, um nada que a maioria tem, lhe tornaria a existência significativamente mais agradável. Contudo, quando lhe analisamos a trajetória e buscamos a motivação para cada um de seus passos, percebemos que estão todos eles enraizados neste deslocamento que, profundamente sentido, gera um desconforto que impele a ação. É um desconforto, portanto, produtivo, que necessita expressar-se e necessita agir a fim de atenuar o sentimento; é um desconforto que, em suma, não permite a acomodação.