É muito difícil não se deixar levar…

É muito difícil não se deixar levar pelo misticismo quando este oferece-nos respostas plausíveis para fenômenos que, de outro modo, não parecem haver explicação. Há, é claro, a opção sempre mais simples: negá-los e esquecê-los. Mas, para aqueles seja curiosos, seja atraídos por uma como necessidade vital de respostas, não há opção simples. A princípio, são os olhos abertos; e então a mente a digladiar-se por justificar aquilo que os olhos veem. Aqui o misticismo, posto que inaceitável rejeitar, simultaneamente, os olhos e a razão. O duro é ver que, nalguns casos, a solução mística não tranquiliza senão temporariamente

A vida seria mais justa…

A vida seria mais justa caso fosse possível planejá-la, ou melhor, caso soubéssemos antecipadamente sua extensão. Então que seria infinitamente mais simples balancear, com inteligência, a prudência e a ousadia, descolando de vez uma possível covardia da primeira e uma irresponsabilidade da segunda. É isso, de qualquer forma, um sonho infantil… e temos de viver no escuro, de forma que as próprias palavras prudência e ousadia muitas vezes esvaziam-se de sentido quando miradas em perspectiva: quer dizer, como taxar de prudente, por exemplo, aquele que poupa dinheiro na véspera da morte? Temos, repetindo, de viver no escuro, e isso significa que nosso desconhecimento pode simplesmente anular os efeitos de nossa razão.

A aflição do intelectual

A aflição do intelectual é ver-se impotente perante o curso natural do pensamento de sua época. Ainda que decida fazer algo, será inútil e frustrante. As qualidades que precisa para impor-se e influenciar são frequentemente opostas àquelas que cultivou para tornar-se. Mas não deve lamentar, porque enfim não interessa o “pensamento de sua época”, senão como matéria-prima para suas reflexões. Os modismos caem como surgem, levando consigo seus ideólogos e entusiastas. Não se deve e nem se pode esperar nada senão de uns indivíduos isolados que fazem com que a vida intelectual seja gratificante.

É sempre belo dedicar-se a causas perdidas

É sempre belo dedicar-se a causas perdidas, mas é pouco inteligente permitir-se fritar os nervos por elas. Dedicar-se e nada esperar em troca; dedicar-se a despeito do fracasso inevitável: isso basta. E no mais, deixar que as coisas corram como devem correr, não se preocupando senão como se preocupa com o dia nascer chuvoso ou ensolarado. Fazer o digno e reconfortar-se na consciência; e o resto, que seja como tiver de ser…