É curioso que sejam as leis amplamente respeitadas

É no mínimo curioso que sejam as leis amplamente respeitadas, quando são elas feitas pelas mesmas figuras que, de quatro em quatro anos, vemos sorridentes em outdoors, em propagandas eleitorais e que, esporadicamente, vemos no noticiário policial algemadas e presas por protagonizarem escândalos. Quer dizer: as leis, concebidas em meio à mesma lama responsável por direcionar alguns desafortunados à cadeia, são e devem ser respeitadas como constituíssem um imperativo moral. Sem dúvida, há algo cômico nisso tudo, e faz rir a obscenidade com que o rebanho é escravizado e mantém-se passivo, quando esta pornografia chamada direito deveria mais sensatamente inspirar um estado perene de revolta e insubmissão.

O anarquismo é nobre

O anarquismo é nobre enquanto manifestação de revolta perante as injustíssimas e usurpadoras relações de poder sobre as quais se apoia a sociedade. Homens como Stirner, Thoreau e Proudhon denunciam e arrasam toda a hipocrisia que reveste a argumentação fajuta que sustenta a exploração das liberdades. São homens que se recusam terminantemente a aceitar como normal um estado de abuso sistemático em que, de um lado, gozam uns poucos usurpadores e, de outro, sofrem os impotentes usurpados. Tais homens são, para dizer como Nietzsche, espíritos livres, que não pensariam duas vezes sobre preferir a morte a uma existência de desonra e escravidão.

As democracias modernas

As democracias modernas congregaram todos os meios mais ardilosos já fabricados pela mente humana e materializaram uma ode suprema e inédita à hipocrisia. Este sistema tão aclamado, cuja crítica é inadmissível e pode valer um lugar na cadeia, resume-se a uma tirania que somente se fortalece à medida que correm os anos. Uma tirania, portanto, um sistema legítimo, mas opressivo, injusto e cruel. O indivíduo, que dela absolutamente não participa, tem de engoli-la e financiá-la, ainda que diante de abusos e absurdos inaceitáveis, observando amordaçado e de mãos atadas a perpetuação de uma vontade manipulável e efetivamente manipulada por canalhas, uma vontade contrária aos seus interesses. Para tudo aquilo que um dia pareceu irrealizável ao mais deslavado dos tiranos, hoje, há meios seguros de execução, e assim parecem as almas, mais do que nunca, submetidas e incapazes de reagir.

Ao mesmo tempo que a prudência…

Ao mesmo tempo que a prudência reclama atenção para o futuro, a paz recusa-se a comparecer ao cômodo mental em que esta esteja presente. O futuro, friamente analisado, é o fim e a possibilidade do fim. Em instância inferior, é a incerteza atual concretizando-se num pesadelo. Para que haja paz, é preciso não haver apreensão, e dificilmente se evita esta quando se vislumbra o amanhã. Em parte, é compreensível a tranquilidade do budista que nada tem e nada teme; mas, a menos que se efetive um rompimento total com os vínculos, algo quase fantasioso, não parece possível sê-lo e não ser, também, irresponsável.