A obsessão moderna com a sexualidade

A obsessão moderna com a sexualidade, que a reputa questão de primeira categoria e não consegue, não suporta meia dúzia de palavras que não evidenciem seu caráter primordial no ser humano, só faz validar as velhas, desagradabilíssimas e antipopulares afirmações de numerosos pensadores ao longo dos séculos que notaram distanciar mais o homem superior do homem comum do que este de um cão. Escancara-se, para dizer como Pessoa, uma diferença de qualidade, uma repulsa inevitável, e ao primeiro parecerão sempre desprezíveis e degradantes as preocupações do segundo.

Voltando ao passado

É uma ironia divertidíssima a frutífera tendência, da parte das “novas ciências”, de voltarem-se ao passado em busca de fundamentação e respostas. Vemos, por exemplo, a psicologia, que tornou-se outra após Jung, muito mais complexa, interessante e efetiva, graças às profundas investigações que fez Jung em variados terrenos de variadas culturas antigas. E tal fenômeno não se limita às “novas ciências”, fazendo-se presente na literatura, na filosofia e onde quer que voltemos as lentes: parecem estar as respostas de que carece o homem presentes nos mais primitivos vestígios de sua existência, limitando-se a expansão de seu conhecimento a dar novas formas a conclusões — para não dizer verdades — já há muito percebidas.

A cela de Freud

Causa pena imaginar Freud encurralando-se gradativamente numa cela da qual, até o fim da vida, julgou impossível a libertação. O drama de Freud é não ter aparentemente partido do erro, mas sim de uma visão limitada que aprofundou-se e não se expandiu. Parece ele ter carecido de um mestre, ou ter-lhe sido a experiência repetitiva, pobre e insuficiente. É muito difícil não sentir pulsar a antipatia quando se analisa a obra de Freud em conjunto: é preciso serenidade para recordar que esta obra, também, encerra uma legítima tragédia individual.

Efeitos da torre

Não há negar alguns efeitos naturais da famigerada torre. Os motivos que levam o homem a nela se instalar variam da experiência ao raciocínio; mas, sem dúvida, a verdadeira torre alberga somente residentes voluntários. Uma vez instalado, vai o homem como que se modificando com o tempo que parece, sobretudo, endurecê-lo. Isolado de agitações, o ânimo arrefece, o corpo estabiliza e a mente parece compensá-lo em atividade dobrada. Em pouco, escancara-se um abismo entre tal postura e a dita normalidade, a qual é analisada em repulsa crescente. Daí que medra no espírito uma intolerância incontrolável, uma aversão violenta àquilo que o raciocínio condena repetidas vezes em intermináveis horas de meditação: o mundo é visto em sua face mais perversa. É certo, pois, que pode a torre estimular sobremaneira a amargura — e frequentemente o faz. Concretiza-se, assim, uma dureza de caráter incomum; dureza que fatalmente acaba, hora ou outra, cometendo uma injustiça. Aqui, dá-se algo curiosíssimo: deparando-se o recluso com a injustiça cometida ou, melhor dizendo, deparando-se ele com uma natureza que lhe contraria os julgamentos, há um choque tão violento que aparenta operado por uma entidade superior. Então, ressurgem os restos de uma humanidade morta e, num misto de assombro e remorso, o habitante da torre parece amolecer.