O primeiro passo para aquele que não deseja, no fim da vida, senti-la integralmente desperdiçada é encontrar, quanto antes, algo que a preencha de sentido, que motive, que traga o desejo de acordar no dia seguinte — este algo é o que comumente se denomina vocação. Encontrando-a, cabe em seguida executá-la diariamente, independentemente das circunstâncias. Se necessidades mais urgentes roubarem-lhe tempo, é executá-la pelo pouco que seja, mas encarando-a como a prioridade impreterível da rotina — o postergá-la é desbaratar o escasso tempo. Assim, deve-se deliberar a situação atual como temporária, e todo o restante da vida deve visar a criação de condições que permitam exercer tal vocação em tempo integral. Esforços não devem ser poupados, e deve-se valer de tudo quanto estiver à disposição para alcançar esse objetivo e livrar-se desta rotina que lhe é inadequada. Nisto, já se alcança uma satisfação prévia, já se experimenta uma sensação de tempo bem aproveitado. Por fim, há dois possíveis cenários: ao que cria para si as condições para lhe exercer o chamado em tempo integral, basta exercê-lo; aos demais, basta que não desistam, e assim não fecharão os olhos arrependidos de desperdiçar as oportunidades que tiveram.
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A mais encantadora das sereias
Esta que é a mais encantadora das sereias, a misantropia, parece mesmo afeiçoar-se a artistas e ser-lhes, além de objeto de culto, fonte primária de inspiração. Formosíssima senhora: mais que sereia, musa! E não canso de admirar como são úteis as barreiras levantadas em redor da mente inclinada à arte. Vigny, e não Victor Hugo, e não Lamartine, foi quem personificou a plenitude da vocação poética. E pior para aqueles que buscam motivação entre pedras!
Exercicios espirituales, de Inácio de Loyola
Percorro estes Exercicios espirituales, de Inácio de Loyola, e não posso deixar de imaginá-lo a compô-los nas condições incrivelmente miseráveis descritas em sua biografia. A comparação com Frankl é inevitável. Se confrontamos o teor destas linhas, ou melhor, se consideramos estas linhas como originárias das circunstâncias que rodeavam-lhes o autor, deparamo-nos com uma pujança psicológica inquebrantável capaz de proezas quase sobre-humanas. Enfim, vemos método no esforço consciente em atribuir sentido para as misérias vivenciadas, na afirmação contínua de um voto, na superação dos próprios limites, na transformação da mente em fortaleza indestrutível. Esses Exercicios atestam a vitória absoluta de Inácio sobre o meio circundante e sobre si mesmo. Linhas admiráveis!
O espírito superior, quanto mais desenvolve-se…
O espírito superior, quanto mais desenvolve-se, mais aumenta o distanciamento entre si e os outros, complicando as relações até torná-las impossíveis. Nietzsche confessou: “A minha humanidade é uma contínua vitória sobre mim mesmo”. E a verdade é que desenvolvendo-se, um espírito individualiza-se, e consequentemente afasta-se de quanto é tido como “comum”. Homens ordinários encontram semelhantes com uma facilidade que é quase uma bênção, justamente por haver entre eles uma similaridade psicológica e comportamental que permite afinidade imediata. Aos que se apartam da norma, tudo é muito diferente. O individualizar-se, por isso, dá-se em detrimento dos vínculos; é portanto um inconveniente que deve ser meditado. Quem se retira dos homens, acaba por transformar-se num estranho; a realidade se lhe transfigura e se, por um lado, evolui espiritualmente, por outro torna-se incapaz da simpatia pelos homens, enfim considerando uma vitória, como fê-lo Nietzsche com a sinceridade habitual, o simples suportar-lhes a proximidade.