Sinto-me perfeitamente capaz de imaginar efeitos impressionantes provenientes das práticas tântricas budistas, que não são senão um processo de reeducação mental. Mas nem o budismo, nem qualquer outra escola oriental pode convencer-me do contrassenso de negar a realidade, não importa quão maravilhosos efeitos prometam com o fazê-lo. Compreendo os perigos de valorar sobre o erro, compreendo, sobretudo, a necessidade de romper com os laços terrenos; mas minha mente rechaça violentamente o considerar-me um nada em essência, envolto num nada desprovido de qualquer fundamentação: zeros e mais zeros, e nunca alguma coisa. Não! Há ilusões e posso distingui-las porque há, também, algo não ilusório. Há a mente e os produtos da mente, como há uma realidade exterior que se lhes difere. Lamento, lamento, mas não posso aceitar como fenômenos idênticos um soco na cara imaginário e um soco na cara real — e posso, quem diria!, provar o que digo.
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Filosofias da afirmação e da negação, de Mário Ferreira dos Santos
Disse, se não em ato de coragem, ao menos de honestidade intelectual, que a obra máxima de Nagarjuna pareceu-me delirante. Parei por aí. E eis que agora, após cerca de dois meses, entro em contato com esta Filosofias da afirmação e da negação, deste enorme Mário Ferreira do Santos, que esmaga metodicamente cada uma das linhas de Nagarjuna que tanto me estranharam, e que não arrisquei aventar o porquê. Mário, nesta obra, deixa quem a lê na difícil situação de concordar ou assumir-se covarde, senão desonesto. Não há espaço para a neutralidade diante da argumentação demolidora que exige o assentimento respeitoso. Saem do debate arrasados o niilismo, o ceticismo, o relativismo, o idealismo, o evolucionismo… e é impressionante como assim Mário prepara o solo sobre o qual ergue sua filosofia positiva, dando-lhe a feição de imperiosa ante as correntes intelectuais em voga. É inegável: Mário Ferreira dos Santos é um fenômeno da mais alta categoria no pensamento ocidental.
A prosa de Tomás de Aquino
Tomás de Aquino deveria ser tomado de modelo por todos aqueles que escrevem tencionando convencer. É curioso notar que sua prosa, simplicíssima, emana um brilho invejável decorrente da clareza com que suas frases revelam-se a quem as lê. Um incauto poderia supor que acaso seria ela uma prosa natural, espontânea. Oh, inocência! Tal resultado é impossível se não amparado num esforço último e constante por clareza. É verdade, é verdade: muitos detalhes, muitas sutilezas… mas deleita o apreciar linhas tão precisas, e é admirável quando se lhes nota motivadas por tão profunda meditação.
Sobre Deus, de Mário Ferreira dos Santos
O que faz Mário Ferreira dos Santos nesta obra intitulada Sobre Deus é digno de nota. Após uma breve exposição sobre o tema escabroso, segue-se um debate de altíssimo nível em que são confrontados simplesmente os melhores argumentos a favor e contra a existência de Deus. Mário, embora externe de antemão sua posição pessoal a respeito do problema, deixa-lhe os opositores falarem livremente. O resultado é uma obra, sobretudo, esclarecedora, cujo desfecho expõe fatalmente as contradições terríveis em que se atiram aqueles que negam a existência de Deus, isto é, a existência do criador supremo, eterno, autossuficiente e imprescindível. Pela lógica, é forçoso admiti-lo. Mas há mais, há um efeito interessantíssimo decorrente da honestidade intelectual e da sabedoria de Mário: não se tem notícia de argumentos mais fortes, completos e convincentes contra a existência de Deus que os levantados pelo barão de Holbach; e estes permeiam a obra sem obstáculos, livres para evidenciar-lhes a potência. Ocorre que, quando confrontados com as provas lógicas irrefutáveis oferecidas pelos grandes estudiosos do problema, as provas lógicas que exigem a existência de um princípio criador e exige-lhe as qualidades que tanta polêmica têm gerado há tanto tempo, os argumentos de Holbach perdem a força, ainda que não estejam sendo diretamente rebatidos. Que efeito! A lógica se impondo soberana! Tudo que poderia ser dito contra Deus está dito, e dito de forma emotiva, eloquente, reunindo aspectos o bastante para que nenhuma alma permita-se indiferente. E, ainda assim, a argumentação fracassa completamente diante de um exame acurado…