Viver é crer na mentira

“L’arte de vivere è l’arte di saper credere alle menzogne” — diz, com acerto, Cesare Pavese. Para agir, é necessário crer; não há vida sem esperança, sem ao menos uma ínfima expectativa, um mínimo brilhar de olhos que, ao acordar, espera o hoje melhor que o ontem. O homem deixa-se iludir por necessidade psicológica; ilusões são alimento para uma mente programada para acreditar. É por isso que a análise do ser humano passa necessariamente pela investigação do irracional.

A realidade reduzida à miséria

Viktor Frankl, atirado num campo de concentração nazista, viu-lhe a realidade reduzida à miséria mais plena. Racionalmente, embora com frieza quase sobre-humana, e embora por uma questão de sobrevivência, por uma urgente necessidade de preservar a sanidade mental, propôs-se a mirar a própria desgraça com as lentes de um cientista. Isolou-se-lhe a mente numa bolha intelectual fictícia e fez da destruição física, psicológica e moral o objeto de suas investigações. É, resguardadas as proporções, o que deve fazer todo investigador sério da vida.

O momento em que o destino faz o seu chamado

Ainda que seja incômodo assumi-lo, — e mais ainda justificá-lo, — parece haver, na biografia de todo grande homem, um momento em que o destino faz o seu chamado e, de praxe, porquanto falamos de grandes homens, estes cumprem o seu papel. É sempre possível identificar a circunstância emblemática cuja resposta — o ato — resulta na concretização da personalidade. Pode-se, ainda, adicionar que tal circunstância configura o ápice de uma biografia, o ponto onde a individualidade se afirma e se distingue e, já que falamos de destino, a própria sorte é definida. A história oferece-nos inumeráveis evidências para essa desagradável constatação que parece nos sugerir que a grandeza de seus personagens limita-se a aceitar, conscientemente ou não, o destino que lhes é reservado. Oh, nota!…

A constatação da fragilidade da vida

O cérebro humano, máquina programada para buscar e identificar padrões, — mesmo onde os não há, — só coagido admite as conclusões provenientes da constatação da fragilidade da vida. Parece-lhe antinatural ter como determinante e presumível aquilo que, num átimo, transforma bruscamente a realidade. A falsa lentidão do tempo o ilude, a morosa mudança de estados parece-lhe conduzir a um fim inexistente — e a máquina, assim, dá luz a juízos errôneos sobre a existência. A dinâmica imprevisível da vida aparenta querer forçá-lo a aceitar que nem tudo resume-se a uma relação de causa e efeito; mas, para ele, o fazê-lo é confessar a própria fraqueza e sucumbir ao irracional.