Imergindo-se em problemas, chega um momento em que parece forçoso esboçar respostas. Do contrário é desistir ou, ao menos, deixar de avançar. Muito se pode dizer das respostas em que, por exemplo, culminou a obra de Dostoiévski; o que não se pode dizer é que esta não tenha encarnado um ciclo completo. Nela estão representados problemas múltiplos em variadas manifestações, e para todos Dostoiévski aponta a solução —aceite-se ela ou não. Não há fugir: embora seja possível postergar o enfrentamento último, essa necessidade velada parece sempre à espreita a perguntar: “E então?” — e aparenta questão de honra apresentar-lhe uma conclusão.
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Meditando com o Yoga sutra de Patanjali
Incomodado por não saber sânscrito, puxo uma tradução inglesa do Yoga sutra de Patanjali e dá-se uma cena espetacular. Naturalmente, puxo o Yoga sutra interessado em ler os sutras que o compõem. Mas não é o que ocorre. Abro o livro e o tradutor, após dizer-me o quanto é difícil traduzir o sânscrito, conta-me detalhadamente toda sua trajetória acadêmica, fazendo questão de citar cada um dos temas que estudou e se especializou, cada um de seus artigos publicados, teses de mestrado e doutorado, explicando-me em seguida como são ricas as filosofias indianas, como são bestas os tradutores que não estudaram como ele, que não se especializaram em tantas áreas como ele se especializou, que ignoram a metaética e que não traduzem com um método tão arguto e diligente como o seu. Nisto, sou arrastado por uma introdução de inacreditáveis sessenta páginas! Acabou? Não acabou. A obra começa e descubro que o tradutor é, também, comentarista, e que seus comentários não se situam no rodapé ou no final do texto, mas interrompendo as linhas do autor. Para cada sutra, — e há sutras que limitam-se a uma frase, — o tradutor anexa-lhe em seguida, não tendo sequer a humildade de diminuir o tamanho da fonte, de uma a sete páginas de comentários! Que é isso? Pergunto com sinceridade: como uma obra apresentada desta maneira pode ser vendida com o título original? Segui o comentarista até perceber que, definitivamente, estava diante de uma obra desfigurada, que gera tudo, menos a impressão da original. Ler um livro de sutras é pausar, após cada aforismo, e ruminá-lo em mente. Mas isso é impossível quando logo em seguida o tradutor enceta falação interminável! O efeito gerado é exatamente o contrário: a obra perde-lhe por inteiro o caráter sintético, vai-se-lhe embora a densidade, passa de uma coletânea de sutras para um extenso e prolixo estudo de hermenêutica e filosofia comparada. É isso o que puxei da prateleira para ler? Não, não é. Independentemente da relevância dos comentários, o comentarista proíbe-me de pensar e absorver diretamente a obra, desviando-me a atenção e simplesmente impedindo a obra de falar em sua cadência natural. Termina em vírgula um sutra, e encontro-lhe a sequência quando já nem lembro sobre o que falava. Abro o Yoga sutra e leio o especialista em metaética e filosofia da linguagem; abro o Yoga sutra e, após cada aforismo, em vez de meditar calmamente, tenho o impulso de levantar-me e berrar: “Cale a boca, homem! Respeite a obra e carregue para longe de mim sua mesquinha promoção pessoal!” Que maravilha… alcanço a proeza de fritar-me os nervos com um manual de meditação!
O sono de Schopenhauer
Diz-se que Schopenhauer dormia com pistolas carregadas ao lado de sua cama. Seja vero ou não, a imagem é de uma precisão formidável. Aí está o raciocínio representado em suas virtudes e suas consequências! Que dizer? Schopenhauer, uma inteligência raríssima, pautando-se pelo que lhe ditava a vigorosa mente, não podia conter os efeitos colaterais de sua conduta racional. Dita o bom juízo ter sempre junto de si pistolas carregadas, como desconfiar da vida, dos outros, de tudo!, estando sempre em estado de alerta, temeroso e precavido, sabendo que a vida tende à morte, o sonho à desilusão, o desejo à frustração, a alegria à dor… As consequências, porém, acaso desaconselhem o bom juízo: como julgar acertada uma conduta que impossibilita um segundo de desleixo? Terrível, terrível… Pistolas carregadas ao lado do travesseiro! Viver como Schopenhauer é desarraigar a possibilidade da paz, fomentando um terror psicológico insuportável. Preferível ser uma anta e ter milhares de noites tranquilas antes que chegue a única noite fatal…
A grandiosa loucura de Nietzsche
Embora o veneno de Schopenhauer já se tenha impregnado de forma absoluta em minha literatura, aprecio muito mais a grandiosa loucura de Nietzsche, que exige maior esforço de espírito e premia com honra os pouquíssimos capazes de alcançá-la. Superar o niilismo e inocular na mente um sonoro e definitivo “sim”, desprezar as agruras mesquinhas e efêmeras, transformar a existência numa rotunda exclamação, — ainda que seja necessário contrariar o racional: — tudo isso parece-me mais belo e mais digno de valor.