“Bravura é pelejar perdida guerra!”

Acabo de dar vida a um personagem que dá um nó no raciocínio e contorna um pessimismo terrível bradando: “Bravura é pelejar perdida guerra!”. Cá de fora do poema, diz-me a mente que “burrice” também encaixa perfeitamente na métrica e no ritmo. É verdade, mente, você tem razão… Mas é curioso como o raciocínio amiúde contrapõe-se à honra, exigindo esta uma conduta irracional. “Le cœur a ses raisons que la raison ne connaît point” — assinala lucidamente Pascal. E há vezes em que ser racional é, também, ser medíocre.

A tragédia do pensamento anarquista

A tragédia do pensamento anarquista é constatar que o homem comum não é digno da liberdade. É necessário freá-lo, puni-lo, submetê-lo a uma autoridade que o diga o que se pode e o que não se pode fazer. Partindo-se da premissa oposta, o resultado é o caos. Raríssimos são os merecedores da liberdade, os suficientemente maduros para arcar com suas consequências. Estes pagam por serem superiores… Mas como conceber um mundo onde o homem comum goze de liberdade plena? Não, não… de jeito nenhum! O mundo precisa de cadeias e polícia armada até os dentes.

Niilismo e anarquismo

O niilismo e o anarquismo partem de premissas compreensíveis e justificáveis. Contudo, como por uma atração incontrolável, acabam ambos tendendo para uma ação destrutiva injustificável ou, melhor dizendo, uma ação promotora de uma realidade pior. Levado a cabo, o niilismo é forçado a nivelar um assassino a alguém que não mata, — o contrário seria admitir uma hierarquia moral, — o que é uma efetiva maneira de produzir monstros. O anarquismo, quando entranhado na alma, não pode resultar senão numa réplica violenta a todo tipo de autoridade — destrói com eficiência, mas não parece capaz de erigir sobre os destroços algo melhor. Parecem ambos, o niilismo e o anarquismo, doutrinas fadadas a atirar a alma nas trevas e materializar obras terríveis — embora, a nível individual, possam ser paragens necessárias ao raciocínio e, se aliadas a uma natureza pacífica e contrária à ação, possam servir de alimento ao desenvolvimento intelectual.

O capitalismo impôs uma filosofia comportamental…

O capitalismo impôs uma filosofia comportamental que exige do homem eficiência e profissionalismo no convívio diário. Diferente disso é anormal, repulsivo, contrário à ditadura vigente. Forçoso é responder e-mails, mensagens, retornar ligações, além de ter sempre e para todos o sorriso falso de um vendedor. Uma conduta calcada no interesse e na preocupação com a própria imagem — os outros, sempre os outros, os possíveis clientes de um indivíduo transformado em empresa. Disto a supressão da individualidade: a ação submete-se ao conveniente anulando a própria vontade. Praticamente, perde o ser o reconhecimento de si mesmo, e com isso a noção de importância e dignidade. Não parece haver solução que não parta de um cansaço completo, que se converte em indiferença e desprezo para com o mundo e origine um comportamento que horrorize o cidadão comum.