A paz é a neutralização conjunta da vontade e do sentimento

A paz é a neutralização conjunta da vontade e do sentimento. Como quer que se manifestem, são estes perturbadores do espírito, agitadores que desorientam e afastam o ser da saudável calmaria que configura a paz. Compreendê-lo é entender por que mesmo o júbilo é nocivo: grandes oscilações são indesejáveis quando se tenciona um estado perene e estável, que sirva de base para uma harmonia plena e possibilite um enfoque isento de distúrbios.

Uma proeza inigualável!

Pulo da filosofia para a astrologia, desta para a religião, e onde quer que eu esteja lá encontro palavras de despeito direcionadas a Voltaire. Impressionante! O que alcançou o filósofo de Ferney é uma proeza inigualável! Acabo de ler: “Voltaire, ce marveilleux ignorant, qui croyait savoir tant de choses, parce qu’il trouvait toujours le moyen de rire au lieu d’apprendre”. Como não simpatizar ou, antes, como não cair em gargalhada? Corre o tempo, e cada vez mais aumenta-me o conceito deste célebre filósofo que conseguiu irritar o mundo. Creio ter sido Nietzsche a ressaltar a sabedoria da postura filosófica de Voltaire, que acabava sempre por esticar um sorriso no rosto em vez de fritar o espírito levando a vida e a história tão a sério. Sorrir ante a estupidez humana: eis a raríssima virtude que Voltaire, mais do que ninguém, soube praticar.

O que mais irrita no agnosticismo

O que mais irrita no agnosticismo ou, melhor dizendo, no agnóstico, é a presunção de julgar-se um modelo humano na plenitude de suas potencialidades. Isso, é claro, é o que aponta o óbvio. Se diz o agnóstico que determinadas questões metafísicas ou religiosas são incognoscíveis ao espírito humano, subentende-se que ele conheça-o em seu grau supremo de evolução. Jamais lhe dá na cabeça a possibilidade de haver seres humanos com faculdades que ele mesmo não possui, ou evoluídas em graus superiores aos seus. Em vez de dizer: “Eu não sou capaz de compreender a metafísica”, diz: “O homem não é capaz de compreendê-la”. É a imodéstia e estreiteza de visão típicas dos espíritos inferiores…

Reticências…

Não importa quão grande seja-me o respeito pelo autor ou quão alta seja a elevação de espírito que uma obra dissertativa produza em mim, nunca experimento a sensação de estar diante da revelação de uma verdade. Seria um vício? um ceticismo exagerado e contraproducente? Ou acaso uma limitação perceptiva? É verdade que o estudo da metafísica alça a mente a um plano muito mais interessante do que o plano da chamada realidade sensível; mas de que adianta, para uma mente incapaz de aceitar fórmulas e contrária à afirmação? Reticências…