É lamentável que não seja sensato escrever somente na última etapa da vida, uma vez que não é possível defini-la previamente… Sartre tem razão quando diz que “l’homme est ce qu’il se fait”, e que portanto o ato é o responsável por materializar o gênio, por efetivar potencialidades que, sem a ação, acabariam desperdiçadas. O ato é o esforço voluntário que transforma faculdades em realidade; pelo que faz distingue-se um homem de outro; Dante foi e tornou-se Dante compondo versos, Shakespeare obrando peças; e assim, embora a conclusão possa conduzir a resultados infelizes, não há negar que o mais importante é o agora.
Tag: filosofia
O homem e sua circunstância
É prudente quando Ortega y Gasset diz que “yo soy yo y mi circunstancia, y si no la salvo a ella no me salvo yo”, e também a constatação de que, vivendo para o seu tempo, o homem vive para todos. Há nisto, porém, um perigo. Dostoiévski inseriu uma temática atemporal no cenário de seu tempo; Dante representou a moral de seu tempo em versos sublimes cuja essência residia num drama espiritual acrônico. É impossível abstraí-los da circunstância sem deformá-los, contudo em ambos a circunstância não faz senão pigmentar — individualizando, é claro — uma expressão universal comum a homens de todos os tempos. O autor, se obsessivo com sua circunstância e desprovido do senso do atemporal, tende a perder-se em futilidades efêmeras, tornando-se irrelevante para o futuro, ou mesmo fora de seu círculo social. Mais do que tudo, é necessário que ele desenvolva a noção do que passa e do que fica, do detalhe e do essencial; do contrário será fatalmente esquecido.
É curioso como Kierkegaard, um escritor prolixo…
É curioso como Kierkegaard, um escritor prolixo, — que peca por ser prolixo, — dificilmente me irrita. Embora há trechos de sua obra que causam-me grande tédio, ainda assim não me provocam irritação. Já outros… Oh, Deus! O nome da vez é Jean-Paul Sartre. Como é possível que Sartre, um escritor notável, faça-me desejar desaprender a ler, quando suporto muitas e muitas páginas que sobejam da prosa de Kierkegaard? Parece-me que tolero a prolixidade quando noto o estado emotivo do autor, quando noto que o tema lhe é caro e, sobretudo, quando noto-lhe a sinceridade. Em contrapartida, se o autor despende palavras em nada, se foge do tema proposto, perdendo-se em raciocínios fúteis e vaidosos, gastando-me a vista, então um impulso incontrolável aponta-me o caráter exasperante do que estou a ler. Fecho a obra, bato-a contra a prateleira e verbalizo um insulto. Às vezes, arrependo-me… Não é o caso. Indescritível a alegria de abandonar Sartre para puxar um volume de Helena Blavatsky. Santa irritação!
O poder é sempre o reflexo de uma relação de domínio
Se medimos o poder pela aptidão — disponibilidade de meios — para a corrupção da vontade ou ação alheias mediante a imposição da própria vontade, vemos que o poder é sempre o reflexo de uma relação de domínio. Se quebramos a relação e isolamos o lado dominador, analisando-o de si para consigo mesmo, notamos que tal poder é inútil e ordinário. O desejo de poder, na acepção vulgar, é sempre um desejo que foca as lentes no outro, na subjugação do outro, no fortalecimento perante o outro — e, por isso, abjeto. Desejar influência é demonstrar-se alguém que, não obstante a vaidade manifesta, reputa o outro em destaque na equação da própria vida — menosprezando-o, porém, como inconscientemente menospreza a si mesmo.