O capitalismo impôs uma filosofia comportamental que exige do homem eficiência e profissionalismo no convívio diário. Diferente disso é anormal, repulsivo, contrário à ditadura vigente. Forçoso é responder e-mails, mensagens, retornar ligações, além de ter sempre e para todos o sorriso falso de um vendedor. Uma conduta calcada no interesse e na preocupação com a própria imagem — os outros, sempre os outros, os possíveis clientes de um indivíduo transformado em empresa. Disto a supressão da individualidade: a ação submete-se ao conveniente anulando a própria vontade. Praticamente, perde o ser o reconhecimento de si mesmo, e com isso a noção de importância e dignidade. Não parece haver solução que não parta de um cansaço completo, que se converte em indiferença e desprezo para com o mundo e origine um comportamento que horrorize o cidadão comum.
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A paz é a neutralização conjunta da vontade e do sentimento
A paz é a neutralização conjunta da vontade e do sentimento. Como quer que se manifestem, são estes perturbadores do espírito, agitadores que desorientam e afastam o ser da saudável calmaria que configura a paz. Compreendê-lo é entender por que mesmo o júbilo é nocivo: grandes oscilações são indesejáveis quando se tenciona um estado perene e estável, que sirva de base para uma harmonia plena e possibilite um enfoque isento de distúrbios.
Uma proeza inigualável!
Pulo da filosofia para a astrologia, desta para a religião, e onde quer que eu esteja lá encontro palavras de despeito direcionadas a Voltaire. Impressionante! O que alcançou o filósofo de Ferney é uma proeza inigualável! Acabo de ler: “Voltaire, ce marveilleux ignorant, qui croyait savoir tant de choses, parce qu’il trouvait toujours le moyen de rire au lieu d’apprendre”. Como não simpatizar ou, antes, como não cair em gargalhada? Corre o tempo, e cada vez mais aumenta-me o conceito deste célebre filósofo que conseguiu irritar o mundo. Creio ter sido Nietzsche a ressaltar a sabedoria da postura filosófica de Voltaire, que acabava sempre por esticar um sorriso no rosto em vez de fritar o espírito levando a vida e a história tão a sério. Sorrir ante a estupidez humana: eis a raríssima virtude que Voltaire, mais do que ninguém, soube praticar.
O que mais irrita no agnosticismo
O que mais irrita no agnosticismo ou, melhor dizendo, no agnóstico, é a presunção de julgar-se um modelo humano na plenitude de suas potencialidades. Isso, é claro, é o que aponta o óbvio. Se diz o agnóstico que determinadas questões metafísicas ou religiosas são incognoscíveis ao espírito humano, subentende-se que ele conheça-o em seu grau supremo de evolução. Jamais lhe dá na cabeça a possibilidade de haver seres humanos com faculdades que ele mesmo não possui, ou evoluídas em graus superiores aos seus. Em vez de dizer: “Eu não sou capaz de compreender a metafísica”, diz: “O homem não é capaz de compreendê-la”. É a imodéstia e estreiteza de visão típicas dos espíritos inferiores…