Há algo de verdadeiramente genial na maneira como Gilberto Freyre constrói suas obras. A princípio, impressiona o caráter inclassificável de todas elas, isto é, o caráter de mistura, de obras devotadas a muitas, e não somente a uma ciência. Pelos prefácios, já se nota um amontoado impressionante de referências contrastantes, que instiga a curiosidade de como elas se irão harmonizar nas páginas seguintes. Então começa Gilberto Freyre sua prosa, intercalando antropologia e sociologia, sínteses e relatos, passando de um inventário de costumes a eventos históricos, penetrando no recanto mais íntimo de suas personagens, e todo esse amontoado vai lentamente formando um panorama complexo e vividamente colorido, que dificilmente uma obra puramente sociológica, antropológica ou historiográfica seria capaz de igualar. É como se ele, metódico, trocasse a tonalidade da tinta após pintar vários parágrafos com uma só cor. Depois de muitas páginas, quando já é possível observar o conjunto, sentimo-nos diante de uma obra com precisão historiográfica, mas pintada com sutileza literária na construção das personagens, na minuciosidade de detalhes, na representação dos ambientes socioculturais que serviram de pano de fundo para o período histórico abordado. É claro que suas obras, construídas dessa maneira, não podem agradar os tarados pela objetividade dos fatos — mas estes, porém, conhecendo-os, por isso mesmo não serão jamais capazes de os interpretar.
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O cristianismo é a principal barreira ao coletivismo
Foram pouquíssimos a enxergar que consistiria o cristianismo na principal barreira a impedir que o ocidente fosse totalmente dominado pelas ideias coletivistas que floresceram no último século. Nestes dias, perdura uma guerra que já estaria perdida, não fosse a honrosa resistência cristã. O lance histórico já é patente, e demasiado interessante para ser ignorado: após décadas de insultos e perda de prestígio, só o cristianismo parece ter firmado laços fortes o suficiente para suplantar esta praga chamada comunismo. Quem diria! Num mundo laico, justamente a religião a salvá-lo da opressão totalitária que permitiu progredisse a níveis inéditos. Os historiadores terão de fazer justiça, caso livre-se o ocidente da desgraça e da miséria que o ameaça, e creditar ao cristianismo as honras de evitar aqueles que seriam talvez os mais infames e mais sombrios capítulos da dignidade humana.
Embora historicamente o pessimismo possua…
Embora historicamente o pessimismo possua incrível taxa de acerto, não há negar que falhe e seja incapaz de enxergar pontos de inflexão importantíssimos. Para dizer como Carlyle, a história evidencia um processo em que as mentiras são repetidamente sepultadas. Dirá o pessimista, e talvez com acerto, que lhes tomarão o lugar novas mentiras. Mas não se pode negar que algo haja de benéfico no processo, isto é, que uma mentira, perdendo a força, abra espaço para que algo novo floresça, algo antes impedido pela limitadora e coerciva ação do falso. Com isso, novas possibilidades; ganha o homem, e ganha a história. Por outro lado, o tempo realmente parece induzir um equilíbrio entre empolgação e desencanto. O prudente, portanto, é deixar de lado os julgamentos extremados.
Nunca deixa de me impressionar…
Nunca deixa de me impressionar o ambiente cultural experimentado e descrito por homens de outros tempos. Para mim, é imergir numa realidade paralela que eu julgaria impossível não houvesse tantos e tantos relatos em diferentes línguas e de épocas distintas. Tudo parece apontar-me que eu e minha circunstância somos a exceção. Cada vez que percorro esses diários, cartas e similares, não é sem um sorriso no rosto que faço minhas notas. Cartas! Já não existem cartas; o gênero epistolar tornou-se quase poético. E pensar em toda essa literatura concebida sob o cheiro de tinta, penas, candeeiros, móveis robustos… e do lado de fora teatros, óperas, saraus… é toda uma realidade que impressiona sobretudo pelo contraste. Talvez esteja tudo realmente muito bem, e seja um privilégio poder apreciá-la com este encanto só conferido pelo tempo…