O que há de mais difícil e perigoso para nós, modernos, no estudo da história, é vencer a tendência de ver-nos a malícia refletida nas ações daqueles que viviam num tempo ainda não corrompido pelo marketing. Somos inclinados a encontrar, sempre, a mentira e o interesse por trás de cada ato e de cada palavra, quando, em verdade, para nem entrar na questão moral, estas não premiavam com a generosidade e segurança que ora premiam. À mente moderna é estranha a pureza de intenções e o agir sem nada esperar em troca; por isso, para bem compreender algumas vidas pregressas, é preciso, antes de tudo, submeter-se a uma evolução.
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“Um regime ainda mais elitista”
Diz-nos Gilberto Freyre, em Ordem e Progresso:
Tal foi o caso dos republicanos. Vociferando desde 1870, com a fundação de seu partido, pela abolição da escravidão, a incorporação dos excluídos à cidadania e a construção de uma sociedade democrática e participativa, assim que chegaram ao poder esses líderes criaram um regime ainda mais elitista, concentracionário e excludente do que aquele da monarquia que haviam destituído.
E, mais adiante:
Raros parecem ter compreendido o que havia de substantivamente autoritário nas ideias dos principais fundadores da República em contraste com o que se tornara essencialmente antimonárquico no parlamentarismo e no extremo liberalismo de muitos dos estadistas do Império, tantos deles apenas adjetivamente monárquicos nas suas ideias e nos seus processos.
Talvez não haja, em toda a história brasileira, uma tragédia melhor desenhada do que essa transição, não de regime político, mas de valores que culminou talvez na ditadura de Floriano Peixoto, depois da qual o Brasil jamais foi o mesmo. Foi todo um assassinato progressivo de cada uma das qualidades morais que caracterizavam a índole da sociedade brasileira, operado especialmente por um sistema que passou a premiar o opróbrio, a vilania e a malandragem, em contraposição direta com o que ocorria no Brasil imperial. É preciso ser completamente cego para não enxergar o desastre, a derrocada que assolou um futuro que então aparentava auspicioso a médio prazo e que talvez não esteja melhor retratado na literatura brasileira que pelo dramático Pneumotórax, de Manuel Bandeira: podia ter sido, e não foi.
Tradições e crise
Já foi notado, e com sabedoria, que em épocas de crise não resta a um povo senão apegar-se ao passado. No desespero da incerteza escancarada pela crise, emerge a tradição como um porto seguro, e assim aquela é vencida tanto mais facilmente quanto mais sólido for o passado de um povo, quanto mais estiver ele entranhado e presente no estágio atual. Disto é evidente que há nações mais e menos vulneráveis; impressiona, porém, quando notamos que as ditas menos vulneráveis, ainda que por um curto período, convertam-se na negação daquilo que sempre foram, parecendo romper com o elo histórico que as define. Automaticamente pensamos: e então, que será? Mas é curioso notar que, o mais das vezes, por conjunturas que talvez escapem ao raciocínio, surgem as tradições — sempre elas — revigoradas, e acabam como salvadoras de um futuro que parecia resumir-se no caos.
Os agitadores políticos de épocas passadas
É um fato notável que, para que saibamos quem foram os agitadores políticos de épocas passadas, tenhamos de recorrer a obras que não as de história. São raríssimas as exceções a essa regra, e o mais das vezes aplicam-se aos piores exemplos da classe. Triste destino! E ver que a história não concede uma linha, uma mísera menção ao grosso destes que em vida inspiram admirações tão exaltadas, influindo diretamente na dita opinião pública e passando uma falsa impressão de importância — que a história trata de desmentir. Disto se tira uma única conclusão…