É difícil dimensionar o quão desastroso…

É difícil dimensionar o quão desastroso foi este último Acordo Ortográfico, e quanto mais se aprofunda nas minúcias destas novas regras, ou melhor, no que deixou de existir na língua após a sua aplicação, mais se lamenta e mais se revolta. A questão deveria se encerrar nas motivações do acordo, e suscitar gargalhadas diante da incompetência e ilegitimidade das “autoridades” que arrogaram a si mesmas o direito de decidir. Contudo, a estupidez vigorou. E, agora, alguém que queira segui-la perdeu a possibilidade de raciocinar dentro da língua, de imbuir-se no espírito da língua, e tem de consultar sempre os ditames das mesmas “autoridades” sobre como se deve escrever. É tudo muito ridículo. Um escritor tem de consultar esse tal de VOLP para saber se hifeniza ou não um substantivo composto, para saber se a mente caótica dos especialistas o considerou substantivo, “expressão com valor de substantivo”, ou alguma locução. A ambiguidade intrincada e ilógica dos critérios resultou em não haver mais critérios, apenas determinações. Diante desta lista infinita de exceções arbitrárias, ao menos, pode se extrair uma lição: numa língua variada e viva como o português, a mera ideia de qualquer acordo deveria constranger.

O atributo que se tornou mais característico…

O atributo que se tornou mais característico do português escrito é a utilização apurada dos pronomes, o que já não se vê no português falado, salvo em algumas poucas regiões. Tal domínio, sozinho, pode transformar um texto canhestro em elegante, algo ostensivamente perceptível em traduções. O tradutor inabilidoso, o escritor inabilidoso, não conseguem se valer dos pronomes para dotar os períodos da concisão e do estilo possibilitados pelo idioma, e o resultado é que um discurso gramaticalmente correto, uma tradução semanticamente precisa, soem como mal escritos em português. Talvez, não haja outro elemento da técnica que transmita mais inteligência a um texto, nem outro elemento sobre o qual o estudo dos clássicos mais tem a instruir.

Diz Dante Milano, no ensaio O verso dantesco…

Diz Dante Milano, no ensaio O verso dantesco:

Em nenhum idioma o “r” soa com tantas vibrações como no italiano. E é desta letra que Dante tira os mais fortes efeitos ver­bais. Ela é que exprime toda sua cólera. E nenhum outro idioma possui essa força verbal, essa raiva na boca, nos olhos, nas mãos e nas palavras, esse poder de expressão que parece estraçalhar o vocabulário.

Percepção um tanto curiosa… A mim, parece o italiano um idioma muito mais equilibrado diante de suas línguas irmãs, bem próximo ao português, com a diferença que o italiano não possui este fonema gutural fricativo que vemos em “rio”, “Recife”, “raio”, e que, em muitas regiões, como a em que vivo, é também empregado nos “rr”. Comparado ao espanhol, a diferença é mais evidente: o espanhol treme muito mais que o italiano com seus abundantes “r” e “rr”, além de empregar idêntico gutural fricativo no “j”, no “g” antes de “e” e “i”, e no “x” nalguns casos. Se foneticistas o não consideram propriamente um “r”, problema da fonética!, porque o potente fonema não será melhor definido pelo ouvinte senão como um “som de r”. E se o italiano parece tremer pouco diante do espanhol, é diante do francês que mais se evidencia suave — do francês, no qual o gutural fricativo parece dez vezes amplificado e se entranha em todos os períodos, como um som entalado na garganta do falante, que dele jamais se poderá libertar. Quiçá o ouvido se deixe influenciar por experiências que transcendam a fonética. É razoável…

É mesmo uma pena notar que, para o estudante…

É mesmo uma pena notar que, para o estudante normal, não seja possível aprender em profundidade senão um punhado de línguas, algumas das quais, a bem da verdade, talvez nunca se aprenda suficientemente. E então depende-se de traduções que, via de regra, escondem qualidades do original. O mais lamentável é não se apreender particularidades belíssimas de idiomas distantes, que alterariam por completo a compreensão que se faz de suas obras. Algumas vezes, com muita felicidade, uma tradução fornece vislumbres de tais particularidades; e, captando-os, ficamos com o sentimento triste de que, nesta vida, não será possível conhecê-las melhor…