Em português, a beleza e precisão do discurso…

Em português, a beleza e precisão do discurso, seja em prosa ou em verso, dá-se principalmente pela boa escolha dos verbos. Estes, bem selecionados, dispensam advérbios e evitam perífrases, só justificáveis quando pede a cadência. Impressiona notar a quantidade de verbos do idioma, algo que obriga um estudo apurado e constante ao artista sério, que só os dominará talvez após longos anos de esforço. Flaubert, se escrevesse em português, provavelmente dedicaria a eles, e não aos substantivos, a sua obsessão.

Parece certo que, um dia, o Brasil oficializará…

Parece certo que, um dia, o Brasil oficializará a língua brasileira, visto que o tempo inevitavelmente particulariza a língua falada em diferentes terras, dificultando cada vez mais uma unidade idiomática. Há, nisto, muitas razões plausíveis e muitos erros. O primeiro destes é a suposição de que uma língua deve ter uma “unidade”, isto é, deve ser falada da mesma maneira unanimemente. Chega a ser risível pensar que, oficializada a tal língua brasileira, não será ela suscetível às mesmíssimas variações regionais e aos mesmíssimos processos evolutivos que rigorosamente todos os idiomas falados em larga escala sofreram e sofrerão. É preciso ser muito ignorante para supor que canetadas pautarão a língua falada nas ruas, quando é esta que, em última instância, pauta as gramáticas. Medidas estúpidas como este último acordo ortográfico não fazem senão torná-lo ainda mais evidente. Por outro lado, é compreensível e até natural que um povo anseie por uma expressão autêntica. Mas é preciso muito cuidado para distinguir até que ponto esta autenticidade representa uma evolução necessária, em vez de operar um rompimento brusco com as raízes que a permitiram evoluir.

Nota futura

Tenho a nota pronta, mas ainda não posso escrevê-la… Oh, ansiedade! Venha, tempo! Já imagino o prazer, a alegria em transcrever-me a frustração nestas palavras: o russo é muito, é infinitamente mais fácil que o latim! Ler Dostoiévski e Tolstói no original é brincadeira perto de compreender Tácito, Virgílio, Ovídio etc., etc. Venha, tempo! Não posso esperar por esta publicação! Só de pensar em meu dicionário latino quero rasgá-lo, queimá-lo, atirá-lo para longe, eliminá-lo para sempre da minha vida. Já não suporto essa muleta, sem a qual não avanço um parágrafo em autores clássicos… E o russo… que dizer do russo? Aguardemos…

Maravilhas deste século

É uma verdadeira maravilha poder encontrar, em poucos cliques, do fim do mundo, áudios em línguas mortas pronunciadas conforme o falar original. Penso no estudo dos idiomas em séculos passados. É inevitável enxergar-me privilegiado. Por muito tempo li inglês desconhecendo-lhe a pronúncia correta: um erro crasso e comprometedor — e só o compreendi quando coloquei-me a ler poesia. Em poesia, desconhecendo-se a pronúncia, não se compreende contrações que porventura ocorrem, por vezes a métrica aparenta confusa e, principalmente, ignora-se a sonoridade dos versos que, em muitos casos, é fundamental. Em The raven, por exemplo, pronuncie-se aberto o “o” tônico fechado que se repete fechando todas as estrofes do poema, e vai-se-lhe o efeito carrancudo, a ideia e o sentimento sugeridos pelo fonema. Nevermore, nevermore, nothing more, nothing more… Temos aqui, ainda, um “r” que, na pronúncia inglesa, como que prolonga e amplifica a vogal antecedente. Disso a conclusão óbvia: para compreender a expressividade de grandes poetas, é indispensável conhecer a fonética do idioma em que compuseram. E, neste quesito, o leitor deste século só peca por desleixo.