Deus! Quanta vida nestas linhas! Contudo… É lamentável. Um espírito notável digladiando-se, corroendo-se e esmorecendo em meio a anseios de quinta categoria. Turvado por paixões, que lhe desviam o foco e sugam-lhe a energia, Cesare Pavese expõe, neste diário intitulado Il mestiere de vivere, um conflito interior atrocíssimo que desperta, ao mesmo tempo, empatia e pena. Tormentos terríveis, terríveis; e os motivos… injustificáveis, indignos da estirpe do poeta. Numa nota, a prudência: “maturità è l’isolamento che basta a se stesso”, pouco depois, a recaída: “la massima sventura è la solitudine” — manifestações de um espírito que sucumbiu às fraquezas da raça. Pena, muita pena…
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O artista deve empregar todos os meios de que dispõe…
Já disseram — Pessoa? — que o artista deve empregar todos os meios de que dispõe para dar luz à própria obra. Do contrário, as dificuldades não serão vencidas e, provavelmente, ela não sairá. É mister que o artista construa um ambiente propício, molde-lhe a vida em redor do objetivo central; que tenha um horário diário reservado à obra, horário que represente o cerne da rotina e ao qual chegue, todos os dias, em sua melhor disposição. Isso por anos a fio, por quanto lhe durar a existência — sempre ciente, como o era o próprio Pessoa, de habitar o presente pertencendo integralmente ao futuro.
Nelson Rodrigues é um dos raros autores brasileiros…
Nelson Rodrigues é um dos raros autores brasileiros cuja literatura tem valor universal. Isso ocorre, simplesmente, porque Nelson não brinca de criar histórias, não se limita a dizer quão luminoso raiou o sol ou quão triste se encontrava uma personagem. Nelson julga, o mundo e o homem, e expõe uma interpretação pessoal da existência. Aqui reside o distintivo que parece faltar à maioria dos autores brasileiros. Noutras palavras, poder-se-ia dizer: a literatura de Nelson encerra uma filosofia particular.
Mais sobre o estilo de Dostoiévski…
Tornamos ao estilo de Dostoiévski. Para vários, prolixo, defeituoso — e assim concluem que sua obra carece de técnica. Crianças… A imprecisão deste veredito deriva-lhe da superficialidade: considera, somente, aspectos externos. O que se percebe em Dostoiévski é que, estruturalmente, suas narrativas encerram arcos dramáticos muitíssimo bem montados — e por esse motivo, mas citando outro, disse Nabokov que Dostoiévski teria sido um grande dramaturgo. Aprofundando-lhe nas narrativas, isto é, analisando-lhe individualmente as personagens, percebemos que elas, também, encerram arcos e se transformam ao longo da história, acompanhando o encadeamento de fatos que conduzirá ao desfecho e dará sentido para a obra. A violência com que os sentimentos são experimentados e a impressão de agravamento contínuo que ficamos quando percorremos páginas de Dostoiévski jamais ocorreria se Dostoiésvki não conduzisse a narrativa inteligentemente, cumprindo um planejamento estrutural metódico concebido justamente para realçar e dramatizar os elementos da história. Dizer que Dostoiévski carece de técnica é afirmar, não temendo o ridículo, que saíram por sorte várias das obras mais comoventes da literatura universal.