Os sonetos completos, de Antero de Quental

Começaria assim esta nota: “Em Os sonetos completos, de Antero de Quental, pela primeira vez senti-me diante de composições portuguesas que me pareceram rebentos de mim mesmo”. Incrível! E sinto-me inapto a criticá-las, posto o fazê-lo, de uma estranha maneira, parece-me fazer a crítica de minhas próprias composições. Por quê? Meu primeiro impulso é pensar: são os poemas de Antero lugares-comuns? Excetue-se ali algo de sua juventude, de jeito nenhum! Como, então, sinto-me expresso por inúmeros de seus versos? Esteticamente, penso, há notável diferença entre nossas composições: o discurso, sobretudo, sai-nos de forma distinta. E então? Concluo, após muito refletir, que os tormentos de Antero são os meus. O conflito psicológico de Antero é idêntico ao que experimento. A expressão de Antero é o corolário das sendas que percorri. E mesmo o olhar de Antero ante a existência parece guardar enorme semelhança com o meu. Incrível! E pensar que Antero, no fim de tudo… deixemos isso de lado.

Cada época dispõe de um par de lentes peculiar

Embora, essencialmente, a tragédia humana repita-se no decorrer dos séculos, são notórias as variações de cenário, personagens e enredo. É como se cada época dispusesse de um par de lentes peculiar. Por isso o artista, em cumprindo a justa recomendação de “pertencer ao seu tempo”, deve ter muito cuidado para não perder de vista o atemporal. Em mesma medida, as particularidades de um cenário podem gerar interesse e fastio: tudo depende da proporção com que elas se balanceiam com traços que não se desgastarão com os anos.

O médico celestial

Diz Camilo, em passo borbotoante de inspiração:

Há um médico celestial, que Deus põe à beira de cada enfermo das doenças perigosas do espírito: não médico, antes anjo deverei chamar-lhe, anjo que sustém nas mãos candidíssimas a urna dos bálsamos, colhidos nas flores do Evangelho. É o TRABALHO.

(…)

Com o andar do tempo, amoleceram as durezas das religiosas dos Remédios.

Davam já mais largas à reclusa, e esqueciam-se de vigiá-la. Como a viam tranquila e afreimada em seus lavores, entendiam avisadamente que as tentações do demónio dificultosamente pegam da pessoa laboriosa: é por isso, diziam as senhoras lidas em vidas de santos, que os anacoretas faziam cestos de vime no deserto, impenetráveis escudos, e não cestos, contra as frechadas de Satanás.

Não é a solidão que rasga e dilacera: o duro, para o homem, é ver-se privado de distrações. Trabalhar! E, assim, desviar o espírito do confronto pungente que a maioria é incapaz de suportar. Isso, ainda que deixemos de lado as famigeradas “tentações”. É verdade, é verdade: estas linhas saem como que uma adaptação forçada; mas, conquanto não médico, Camilo era sagaz o bastante para perceber um sintoma desta mesmíssima doença e apontar-lhe um remédio eficaz.

A maior criação humana de todos os tempos

Sempre que um homem tenta concentrar-se, algo ocorre para atrapalhá-lo: essa lei fundamental do universo já foi posta à prova por mim infinitas vezes, e verifiquei-lhe a validade em todas elas. Analisei-a com meticulosidade superior a de qualquer cientista, e digo sem titubear: é infalível e não comporta exceções. Quase sempre, o universo envia como distúrbio a voz humana, em suas mais diversas e detestáveis manifestações. É por isso que, a mim, a maior elevação de espírito da história da humanidade foi a do sujeito — anônimo! — que inventou esta maravilha chamada abafador sonoro, abafador de ruído, protetor auricular ou paz portátil — este último nome, obviamente, é como eu mesmo a batizei. Concebida para proteger o trabalhador submetido a um ruído capaz de deixá-lo surdo, essa invenção magnífica simboliza o homem cuspindo na mão e pregando-a na cara do universo. É a maior criação humana de todos os tempos! Que seja abençoado por toda a eternidade esse gênio, esse santo, esse iluminado que a história tratou de esquecer!