Constato, sinceramente, que o prazer estético que experimento ao ler os versos de Augusto dos Anjos é comparável ao que sinto ao ler Camões, Dante e qualquer outra sumidade poética. O engraçado é que, tecnicamente, a poesia de Augusto atropela todas as convenções: sinéreses a cada verso, palavras de pronunciação dificílima, e por aí vai. Mas as imagens vivíssimas e brilhantes que se revelam a cada estrofe, a expressão explosiva, a surpresa ao enxergar relações inesperadas e originalíssimas entre temas aparentemente desconexos, tudo isso parece gerar um efeito mais potente e determinante que as convenções estéticas. Em Augusto há um desespero, um pessimismo exacerbado que beira o ridículo mas materializa, contudo, um brilhantismo sem-par.
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O leitor ideal
Reviso-me as notas e sorrio de minhas irritações. A verdade é que me considero, modéstia à parte, o leitor ideal. Quando abro um livro, a última coisa que desejo é irritar-me com o autor. Concedo-lhe liberdade total para dizer o que quiser, criar do absurdo ao ridículo, romper todas as barreiras morais e mais quanto achar que deva para expressar o que tenciona. O que não tenho — e orgulho-me disso — é uma cartilha para exigi-la de quem leio. Escolho, conscientemente, leituras que aparentam contrárias ao que aparento pensar. E mesmo assim, mesmo com essa abertura quase ilimitada, acabo sempre encontrando quem me atice os nervos…
Não há página vã em Tolstói
Leio páginas e páginas de Tolstói e a mente parece questionar-me: “Por que tanto tempo despendido em outras bandas?”. A sensação é de que, em Tolstói, não há página vã, estamos sempre ante personagens que confrontam o essencial. Confrontam, isto é, raciocinam, enxergam e julgam as circunstâncias que os rodeiam; por vezes, deixam-se agir irrefletidamente, então amargam as consequências psicológicas, remoendo o passado. Passado! este, sempre, objeto de tortura, fonte inesgotável de lamentos… Mas o que mais parece impressionar nestas construções tão vivas, tão cheias de verve e sinceridade, é a inserção minuciosa de detalhes que as dotam de realismo, tornam-nas mais que convincentes. E pensar na mente que pariu esses milhares de páginas douradas… é inclinar o tronco e tirar o chapéu.
A poesia é uma construção musical
A poesia é uma construção musical em que a melodia das letras entranha-se no ritmo dos versos. Sem ritmo, não há poesia. Tire-se a rima, construa-se em versos irregulares, invente-se o que quiser — mas sem ritmo, não há poesia. “Se é assim, o que é a chamada poesia concreta?” Qualquer coisa, menos poesia. Como chamar poema uma construção ilegível, indeclamável? Se queriam inventar, que inventassem também um nome para a criação — “concrema”? Disto, é claro, não se conclui que esta chamada poesia concreta não seja arte; de fato ela é, mas uma arte visual, uma arte para ser contemplada, não para ser lida ou declamada. Que atirem as pedras! Admito emocionante deparar-me com um concrema em que a palavra “amor” está genialmente disposta em formato de coração; mas continuarei a julgar o concretista como artista visual, e não como poeta.