É curioso como Kierkegaard, um escritor prolixo, — que peca por ser prolixo, — dificilmente me irrita. Embora há trechos de sua obra que causam-me grande tédio, ainda assim não me provocam irritação. Já outros… Oh, Deus! O nome da vez é Jean-Paul Sartre. Como é possível que Sartre, um escritor notável, faça-me desejar desaprender a ler, quando suporto muitas e muitas páginas que sobejam da prosa de Kierkegaard? Parece-me que tolero a prolixidade quando noto o estado emotivo do autor, quando noto que o tema lhe é caro e, sobretudo, quando noto-lhe a sinceridade. Em contrapartida, se o autor despende palavras em nada, se foge do tema proposto, perdendo-se em raciocínios fúteis e vaidosos, gastando-me a vista, então um impulso incontrolável aponta-me o caráter exasperante do que estou a ler. Fecho a obra, bato-a contra a prateleira e verbalizo um insulto. Às vezes, arrependo-me… Não é o caso. Indescritível a alegria de abandonar Sartre para puxar um volume de Helena Blavatsky. Santa irritação!
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Todo artista deveria ansiar pelo anonimato
Todo artista deveria ansiar pelo anonimato, pois com paredes é possível travar diálogo sincero sem incorrer no risco de sofrer incômodos. As paredes aceitam silenciosas que a arte evolua e a expressão torne-se cada vez mais potente. Contudo, parece a publicação, — isto é, a sujeição à perseguição, — um dever do artista, em honra de todos aqueles que o precederam e padeceram do ódio dos imbecis.
Da história para a metafísica…
É muito mais produtivo saltar de um Sartre para um Swedenborg, fechar a Bíblia e abrir os Upanixades, passar da história para a metafísica do que empanturrar-se do mesmo alimento, restringindo o horizonte do intelecto e privando-o de se imergir em diferentes matérias, valores e estilos. Oscilar entre extremos buscando pelo valioso de tudo e absorvendo-o tanto quanto possível: com essa técnica, até o cérebro mais renitente é forçado à evolução.
O escritor que se atrevesse a criar um personagem como Jakob Boehme…
Se um sapateiro deu luz a centenas de páginas de interpretações metafísicas… Fico pensando: o escritor que se atrevesse a criar um personagem como Jakob Boehme cairia no ridículo. É inevitável. O raciocínio não admite tamanho contraste; recusar-se-ia inevitavelmente a creditar a narrativa. Não obstante, aí está… A primeira objeção da mente seria: “Um pensador dessa estirpe se não rebaixaria nunca a um trabalho manual”. Em seguida prosseguiria, insuportável como de costume: “Tais reflexões só brotam de uma natureza cem por cento devotada ao espiritual”. A conclusão: “História estúpida e falsa”. De idêntica maneira, julgaria caso defrontasse um Boehme vivo e falante. Nisto mede-se a vastidão da miséria do pensamento objetivo.