“Heróis” dignos de desprezo

A maneira como, em Guerra e paz, Tolstói repetidamente desdenha do “gênio militar” que deixou a Rússia destruído e de todos os seus vis admiradores é uma mostra acachapante de sua nobreza e altivez moral. O desserviço que prestam historiadores idolatrando loucos assassinos, escravos das ambições mais abjetas que fizeram da carne humana o trampolim para seus anseios mesquinhos, apresentando-os como criaturas superiores e modelos de virtude é digno de repulsa total. Tais historiadores, lambedores de botas medíocres, frequentemente encontram o admirável em tarados responsáveis por carnificinas espantosas, e o narram com a pompa de um patriotismo vestido de honra — mas são os mesmos que, em vida, vendem a honra por um elogio público e imploram de joelhos por aceitação.

Il mestiere de vivere, de Cesare Pavese

Deus! Quanta vida nestas linhas! Contudo… É lamentável. Um espírito notável digladiando-se, corroendo-se e esmorecendo em meio a anseios de quinta categoria. Turvado por paixões, que lhe desviam o foco e sugam-lhe a energia, Cesare Pavese expõe, neste diário intitulado Il mestiere de vivere, um conflito interior atrocíssimo que desperta, ao mesmo tempo, empatia e pena. Tormentos terríveis, terríveis; e os motivos… injustificáveis, indignos da estirpe do poeta. Numa nota, a prudência: “maturità è l’isolamento che basta a se stesso”, pouco depois, a recaída: “la massima sventura è la solitudine” — manifestações de um espírito que sucumbiu às fraquezas da raça. Pena, muita pena…

O artista deve empregar todos os meios de que dispõe…

Já disseram — Pessoa? — que o artista deve empregar todos os meios de que dispõe para dar luz à própria obra. Do contrário, as dificuldades não serão vencidas e, provavelmente, ela não sairá. É mister que o artista construa um ambiente propício, molde-lhe a vida em redor do objetivo central; que tenha um horário diário reservado à obra, horário que represente o cerne da rotina e ao qual chegue, todos os dias, em sua melhor disposição. Isso por anos a fio, por quanto lhe durar a existência — sempre ciente, como o era o próprio Pessoa, de habitar o presente pertencendo integralmente ao futuro.

Nelson Rodrigues é um dos raros autores brasileiros…

Nelson Rodrigues é um dos raros autores brasileiros cuja literatura tem valor universal. Isso ocorre, simplesmente, porque Nelson não brinca de criar histórias, não se limita a dizer quão luminoso raiou o sol ou quão triste se encontrava uma personagem. Nelson julga, o mundo e o homem, e expõe uma interpretação pessoal da existência. Aqui reside o distintivo que parece faltar à maioria dos autores brasileiros. Noutras palavras, poder-se-ia dizer: a literatura de Nelson encerra uma filosofia particular.