A crença literária, bela e silenciosa, o sofrimento íntimo e tímido, a resignação solitária… nada disso parece existir. O que existe e abunda é a vaidade desmedida, o instinto gregário infame unido à necessidade de validação pelos outros. Existe o impor a própria visão de mundo, a exigência de concordância, a intolerância ante o dissidente, a certeza e o orgulho da própria distinção. Pregar, repelir, exigir são os verbos corriqueiros — nunca intransitivos, sempre exigindo um complemento pessoal. Às vezes parece a literatura prestar um desserviço à compreensão do mundo objetivo.
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O que se distingue num artista é a força e a multiplicidade de suas manifestações
O que se distingue num artista é a força e a multiplicidade de suas manifestações. Criatividade não é senão a capacidade em apresentar ideias múltiplas com potência. Por isso todo grande artista, desenvolvendo-se, tende à variedade e aos excessos e torna-se gradativamente mais radical em suas manifestações. Em geral, acabam ceifados desta terra antes de se darem por satisfeitos. Mas há, também, os que se recolhem no silêncio após convictos de que disseram, até a última palavra, o que haviam de dizer.
Melancolia…
A melancolia, tão frequente em artistas, matéria-prima de quase toda obra poética, classificada por Poe como “the most legitimate of all the poetical tones”, parece estranha à minha natureza. Caio em melancolia, se é que posso assim dizê-lo, somente quando distraio-me em questões do cotidiano. Tendo melancolia, é claro, com a tristeza entre suas manifestações. Se tomada como um desencanto geral — que não necessariamente redunda em tristeza — então sou dela íntimo como um irmão. Aflição, tortura psicológica, conflito mental interminável: estes tenho-os naturais como o dia e a noite. Não sei de onde vem essa disposição psicológica, mas pela tristeza me não sinto unido a nenhum dos grandes poetas.
A arte séria não entrega prazer ao artista
A arte séria não entrega prazer ao artista. Dizê-lo é repetir o óbvio… Kafka é o modelo de artista sério: Kafka, o escritor que queimava quase tudo o que escrevia e que viveu como um completo anônimo. Que lhe deu a arte? Nada, senão aflição. Quem julga a arte entregar qualquer tipo de contentamento desconhece-a por completo. O artista esforça-se por dezenas de horas: cria a obra. E então, que faz? ou ainda: de que lhe serve a obra? De início, a arte séria não vende — e é um insulto pensar que seja feita para vender; — depois, é uma piada imaginar alguém como Kafka satisfeito ou contente ao vislumbrar o que pariu. Kafka certamente relia as suas obras, e é por isso que as queimava. Uma obra séria, posto criada, repugna ao artista; uma vez criada, tem de desaparecer de seu campo de visão. De resto, aí está o que a arte entrega: infinitas horas de amargura, e um juízo final desgostoso. Como Kafka, é deixar inédito o trabalho de uma vida e ordenar em testamento: “Queime tudo o que sobrar de mim!”.