É impressionante a incapacidade de alguns críticos de diferenciar uma ideia de sua expressão, o que os conduz a uma lamentável interpretação literal. E vê-lo em supostos conhecedores de arte… Assim, associam ao autor a feição que a obra deixa transparecer. Em verdade, o método muitas vezes funciona; mas falha miseravelmente quando o motivo artístico se manifesta nas conclusões daquilo que se representou. Para o crítico, não deveria ser difícil ver o moralista em Nelson Rodrigues, o cristão em Dostoiévski, a sobriedade no explorador da loucura, a qualidade que, ciente de si mesma, representa a sua oposição. Tudo isso é demasiado simples, mas parece haver profissionais das letras que não tiveram a oportunidade de aprender.
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Não se fará, e nem faria sentido que se fizesse…
Não se fará, e nem faria sentido que se fizesse uma nova Divina comédia, embora justamente possa ela ser considerada o modelo supremo de realização artística nas letras. Neste sentido, é forçoso admitir: a mudança do tempo exige uma arte que a represente. Contudo, o haver ali condensada toda a cultura de uma época, que se harmoniza com a manifestação de uma consciência individualíssima a qual, embora nela se movimente e por ela se expresse, consegue ao mesmo tempo pintá-la e julgá-la, é lição que o artista moderno faz muito bem em assimilar. O tempo presente é, e sempre será, uma oportunidade única. O novo é necessário, mas não sairá valioso se não fundado numa velha e imorredoura compreensão.
Uma nova orientação surge quando o escritor…
Uma nova orientação surge quando o escritor percebe e assume a herança intelectual da qual é beneficiário, e que através de sua obra tem de se manifestar. Ainda que não percebê-la seja difícil, assumi-la exige deliberação. Somente assim, integrando-se numa tradição que o precede, o escritor obtém a tranquilidade e a certeza de trabalhar em algo que o ultrapassará. Ao escritor moderno, nada pode fazer tão bem quanto inverter a tendência egoísta e vaidosa, encher-se de humildade e conscientemente dedicar a vida a dar continuidade a algo que já começou.
Um dos aspectos mais difíceis da literatura…
Um dos aspectos mais difíceis da literatura é que, tendo em vista que somente escritores afortunados criam ou desfrutam da possibilidade de dedicação integral à escrita, somado ao retorno às vezes indistinto e à impressão de que escrever é um fardo, facilmente se relega a profissão. Daí que poucos perseveram, e mesmo estes, às vezes, não relatam mais que desconsolo no ato de perseverar. Felizmente, o dever é muitas vezes incoercível, e o labutador aflito julga erroneamente o retorno daquilo que se produziu.