Embora nunca assumida, e nunca apregoada…

Embora nunca assumida, e nunca apregoada, há uma diferença qualitativa demasiado óbvia entre a poesia que se funda em mentiras e aquela fundada em impressões verdadeiras. Assumi-lo, contudo, é ver com novos olhos grande parte dos poetas laureados, algo que ninguém parece se dispor a fazer. Mas é preciso notar que, se tomados a sério, talvez não haja piores conselheiros e piores mentirosos do que estes inumeráveis poetas que tudo envolvem de sensualidade: o que chamam de “beleza”, “doçura”, “encanto” é simplesmente falso. Como, pois, reputá-los tão eminentes se só sabem trabalhar com ilusões? Falta-lhes realidade, e a percepção de que a verdadeira beleza permanece. É com certeza mais difícil, mas não é impossível conceber uma poesia laudatória que se ampare numa intuição real.

Na vida de estudos, cedo ou tarde…

Na vida de estudos, cedo ou tarde, tem de ser desenvolvida a habilidade de lidar com o paradoxo de que só se deve, ou só se deveria ler aquilo que se deseja reter, embora o conhecimento de pilhas e pilhas de livros seja necessário para o avanço em qualquer estudo sério. Para este dilema, nunca há solução definitiva. É preciso ler, e ler lentamente; mas o interesse real que sustenta a leitura atenciosa quer ir atrás de fontes, quer alargar mais e mais a própria compreensão: o resultado é uma lista de próximas leituras que só cresce, indefinidamente. Logo se percebe que não é possível ler tudo quanto se pretende, que é preciso escolher. Mas escolher já encerra outro problema: é preciso mesclar o seguro ao misterioso, ao inexplorado, pois nunca se sabe exatamente o que neles se pode encontrar. Enfim, o estudo tem de se deter em listas, títulos, índices, e se não encontra tudo o que procura, é força reconhecer que a finitude denota necessariamente um limite naquilo que se pode procurar.

Em literatura, não se ensina o bom gosto

Em literatura, não se ensina o bom gosto, e também não se ensina, nem se pode racionalizar, essa fina percepção que o bom leitor desenvolve e é infalível para detectar a falsidade num texto. Às vezes, mesmo que o autor impressione no manejo da linguagem, mesmo que a trabalhe com habilidade e, linguisticamente, o texto soe natural, tudo estará perdido caso ele careça de autenticidade. Neste caso, o falso berra e não há truque capaz de camuflá-lo.

Se é legitimado pela repetição o drama…

Se é legitimado pela repetição o drama do jornalista que passa a vida carregando o sonho frustrado de fazer literatura, é preciso notar que, na maioria dos casos, tal sonho não passa de uma imagem idílica, como qualquer outra, concebida sem reflexão. O jornalista frustrado nunca reflete sobre aquilo que o jornalismo lhe proporciona e a literatura muito, mas muito dificilmente poderia igualar. Em primeiro lugar, um salário; depois, reconhecimento e reputação. Se bem analisarmos, são coisas sem as quais qualquer jornalista só se imaginaria trabalhando num pesadelo. Mesmo o pior jornalista recebe um salário e goza de algum prestígio, tem algum público que o escuta e que o lê. Num cenário sem nada disso, ainda faria literatura? É claro que não. Portanto, o alegado drama é sempre mais fantasioso que real.