A crítica literária sofre da impossibilidade de objetivar totalmente os critérios de julgamento das obras, ficando os pareceres, assim, sempre mais ou menos fundados em preferências pessoais. Até aí, nenhum problema. Este começa quando a crítica se vê obrigada a apresentar-se sempre como objetiva, sendo notório que frequentemente o não é. Assim que se dão muitas polêmicas desnecessárias, talvez evitáveis se fossem mais comuns na crítica os verbos “acho”, “prefiro”, “parece”. O melhor, sem dúvida, é deixar este terreno apenas para os vocacionados, e encontrar meios diversos para, sem jamais apresentar-se como crítico, despejar preferências e opiniões.
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A história de Aladim é destas que…
A história de Aladim é destas que, imberbe ou de cabeça branca, coloca o leitor a sonhar. E é realmente impossível lê-la e não ficar imaginando tudo o que se poderia pedir ao célebre gênio, quão maravilhosamente simples se tornaria a resolução de todos os problemas. Também logo se começa a pensar que boa besta não foi o protagonista, pedindo tão pouco, valendo-se tão superficialmente do imenso poder que lhe caiu em mãos. Sem dúvida, a força desta história se encontra em sua encantadora sugestividade, à qual homem nenhum consegue ficar indiferente. Seja uma grande bobagem toda essa coisa de sultões, magos, joias e princesas, mas são raras as histórias que colocam tão intensamente a mente a sonhar.
Nunca esteve a literatura tão contaminada da política…
A impressão que se tem hoje é de que nunca, nem após a Segunda Guerra, esteve a literatura tão contaminada da política. Mas o contexto é muito, muito diferente. A começar pelo fato de que, no passado, a guerra interpôs-se violentamente na vida de muitos escritores, levando a consequências radicais e terminantes. Ignorá-la, para o escritor, seria faltar com o dever. Depois, a inserção da guerra na literatura deu-se, ao menos nas grandes obras, tal como se deu nos milhares de vidas: como componente de dramas humanos complexos e, sobretudo, reais. Bem diferente é a situação atual, da qual somente uma coisa merece ser dita: não haverá mãos idôneas suficientes para depurar o lixo que estas últimas duas décadas produziram.
É compreensível o grande interesse…
É compreensível o grande interesse, e até nobre interesse dos críticos na literatura contemporânea. Há casos em que, sem eles, o público não tomaria conhecimento, ou não saberia estimar ótimos autores. Também é compreensível, e sob muitos aspectos benéfico quando o crítico consegue estabelecer laços pessoais com um ou vários autores. Porém, talvez não haja mais evidente armadilha a ser colocada em seu caminho, e destas capazes de arruinar a longevidade de sua obra. É chocante observar como, às vezes, podem coexistir na cabeça do crítico um senso histórico apuradíssimo e o mais completo descompasso quando se trata da literatura atual. Isso se percebe, é claro, quando o atual envelhece, escancarando o quanto dele o crítico deixou-se contaminar. Nestes casos, a coragem e a probidade de emitir um juízo sempre sincero pouco fazem para atenuar o problema: tudo parece incoerente quando se tem como norte um desajustado senso de proporções.