The long walk, de Slavomir Rawicz

Uma narrativa como esta dificilmente pode ser igualada pela ficção pura. Para fazê-lo, o escritor tem de empregar extrema habilidade dosando a dramaticidade do enredo, de modo que não soe exagerado, mas ao mesmo tempo comova e convença. Muito, muito difícil… porque, às vezes, o drama se concentra no não dito, no não possível ou não tentado, naquilo que não se concretizou. Do outro lado, temos esta narrativa impressionante, na qual o que vem relatado aparece com o peso exato daquilo que aconteceu. Os exageros são metodicamente dispensados, e ainda assim, a cada capítulo, a cada página, a impressão que se tem é de que a narrativa corre sempre em extremos, sendo preciso que o leitor se esforce para imaginar o grau de intensidade daquilo cuja expressão admitiria numerosas exclamações. Que são os artifícios artísticos diante de uma experiência assim?

Há autores com um poder de assimilação…

Há autores com um poder de assimilação verdadeiramente impressionante, e percebemos que muitas vezes não saberiam definir se as ideias que expressam são suas ou provenientes das referências que deixam transparecer. Decerto, o verdadeiro aprendizado tem aí algo de sua fundamentação. Uma ideia, para ser apreendida, tem de ser sentida como própria, ainda que posteriormente abandonada. Idealmente, porém, o maior intelectual será aquele que tudo abrange e tudo absorve; assim, nada lhe sendo estranho, é capaz de expressar tudo como seu.

Se é verdade que o escritor…

Se é verdade que o escritor, diferentemente do homem público, não costuma receber nesta vida a recompensa do seu trabalho, também é verdade que ele é praticamente imune a tudo quanto destruiria a carreira do segundo. Frequentemente, o que se dá é o contrário, e tomam caráter intrigante aqueles traços da conduta ou da personalidade que, ao homem público, seriam o escândalo certo. Neste sentido, o escritor é privilegiado, e desfruta a vantagem de não ter de falsificar-se para exercer a sua profissão.

É um tanto agoniante correr as páginas…

É um tanto agoniante correr as páginas daquele romancista que, bom escritor, esmerado e sério, não consegue se elevar acima do banal. Oh, infelicidade! Torcemos por ele, ficamos como a querer ajudá-lo, esperançosos de que na página seguinte a narrativa atingirá um nível superior; mas não adianta, nada disso sucede, e enfim nos resta o lamento. Ao menos, lembramo-nos que o grande escritor é grande entre muitos, e precisamente a sua raridade é o que o torna especial.