Uma narrativa como esta dificilmente pode ser igualada pela ficção pura. Para fazê-lo, o escritor tem de empregar extrema habilidade dosando a dramaticidade do enredo, de modo que não soe exagerado, mas ao mesmo tempo comova e convença. Muito, muito difícil… porque, às vezes, o drama se concentra no não dito, no não possível ou não tentado, naquilo que não se concretizou. Do outro lado, temos esta narrativa impressionante, na qual o que vem relatado aparece com o peso exato daquilo que aconteceu. Os exageros são metodicamente dispensados, e ainda assim, a cada capítulo, a cada página, a impressão que se tem é de que a narrativa corre sempre em extremos, sendo preciso que o leitor se esforce para imaginar o grau de intensidade daquilo cuja expressão admitiria numerosas exclamações. Que são os artifícios artísticos diante de uma experiência assim?
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Há autores com um poder de assimilação…
Há autores com um poder de assimilação verdadeiramente impressionante, e percebemos que muitas vezes não saberiam definir se as ideias que expressam são suas ou provenientes das referências que deixam transparecer. Decerto, o verdadeiro aprendizado tem aí algo de sua fundamentação. Uma ideia, para ser apreendida, tem de ser sentida como própria, ainda que posteriormente abandonada. Idealmente, porém, o maior intelectual será aquele que tudo abrange e tudo absorve; assim, nada lhe sendo estranho, é capaz de expressar tudo como seu.
Se é verdade que o escritor…
Se é verdade que o escritor, diferentemente do homem público, não costuma receber nesta vida a recompensa do seu trabalho, também é verdade que ele é praticamente imune a tudo quanto destruiria a carreira do segundo. Frequentemente, o que se dá é o contrário, e tomam caráter intrigante aqueles traços da conduta ou da personalidade que, ao homem público, seriam o escândalo certo. Neste sentido, o escritor é privilegiado, e desfruta a vantagem de não ter de falsificar-se para exercer a sua profissão.
É um tanto agoniante correr as páginas…
É um tanto agoniante correr as páginas daquele romancista que, bom escritor, esmerado e sério, não consegue se elevar acima do banal. Oh, infelicidade! Torcemos por ele, ficamos como a querer ajudá-lo, esperançosos de que na página seguinte a narrativa atingirá um nível superior; mas não adianta, nada disso sucede, e enfim nos resta o lamento. Ao menos, lembramo-nos que o grande escritor é grande entre muitos, e precisamente a sua raridade é o que o torna especial.