Muito se pode aprender com a forma com que esses marinheiros, caçadores e demais aventureiros narram as suas experiências. Em resumo, todas essas narrativas consistem no relato da persecução de um objetivo, que vai sendo obstaculizado por circunstâncias diversas. Às vezes, a adversidade é tamanha que o objetivo passa a ser a mera sobrevivência. Mas prossegue a narrativa sempre imbuída de um propósito claro, ao qual tudo o mais se submete. O leitor nunca hesita a respeito da importância relativa dos eventos, e compreende tudo tão claramente que se sente a viver a história. O relato, pois, literariamente logra, apresentando ao leitor uma experiência, uma vida, repleta de sentido.
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É interessante constatar como alguns destes livros…
É interessante constatar como alguns destes livros de relatos de aventuras fazem uma literatura superior à maioria dos romances ficcionais. É curioso porque, ao menos teoricamente, um relato atém-se aos fatos, isto é, sai como falto de possibilidades imaginativas. Ainda assim, é frequentemente melhor do que engenhosas construções mentais. Por quê? Decerto, não pela linguagem. Como vantagem, poder-se-ia apontar nele uma verossimilhança garantida: sendo real, mais facilmente convence. Mas quando pensamos mais um pouco, essas minúcias cedem perante o óbvio mais patente: fazer boa literatura é, essencial e simplesmente, contar uma boa história. Se a história é boa, o livro acaba por bom. Se não é boa, é inútil sustentá-la com artifícios. No fim das contas, dá-se o mesmo com os relatos e com a literatura ficcional.
Está dito que o jovem poeta Merejkovski…
Está dito que o poeta Merejkovski, aos quinze anos, pediu uma opinião a Dostoiévski sobre a qualidade de seus primeiros versos. Após julgar que não valiam nada, o experiente romancista justificou-se dizendo que, para escrever bem, é preciso sofrer. Sofrer! Decerto, há muita verdade nesta afirmação: nada de importante se compreende antes de uma boa dose de sofrimento, e portanto nada de importante se pode expressar. Mas o curioso é ver que nas agruras, exatamente nelas, brota uma centelha como resposta ao desafio circunstancial. A mente, atingida, sofre e precisa superar a situação. Então tem de compreendê-la, dimensioná-la, absorvê-la. O esforço afinal a engrandece. O sofrimento deixa uma marca, e o resultado traz uma lição. É experimentando-o diversas vezes que o escritor se capacita a ter algo autêntico a dizer.
Embora a poesia bucólica possa…
Embora a poesia bucólica possa, com razão, parecer chatíssima, por vezes intragável, o sentimento que articula é decerto autêntico e belo. E ainda que os versos cansem, quase sempre por se estenderem mais do que deveriam, faz muito bem meditar a imagem que deles brota. O mero imaginar a satisfação plácida e perene que se pode extrair de uma vida centrada na simplicidade e na comunhão com o meio é algo positivo, pois enriquece o imaginário com uma possibilidade tangível que o mundo reiteradamente se esforça por esconder.