O primeiro dever do escritor

Diz Lavelle:

Le premier devoir de l’écrivain doit être de s’élever assez au-dessus de toutes les circonstances de sa vie particulière pour fournir à tous les êtres un appui de tous les instants et les montrer à eux-mêmes tels qu’ils voudraient être toujours.

Tal dever talvez seja o mais difícil, porque o “elevar-se acima de todas as circunstâncias” envolve, primeiro, compreendê-las, e compreender como porventura elas se integram no painel maior da existência individual para, só então, tendo delas extraído um sentido cristalino, pensar em como este sentido pode ser transplantado à experiência humana geral. E comunicá-lo! De fato, não há experiência humana, por individual que seja, cujo sentido não se pode extrair em circunstâncias distintas; o difícil, contudo, é ver o grande no pequeno, algo que crescemos desacostumados a fazer.

Os melhores livros não nos revelam algo desconhecido

Como bem notado por Lavelle, os melhores livros não nos revelam algo desconhecido, mas algo que já sabemos intimamente e que, em razão de uma iluminação súbita, parecemos descobrir. Os melhores livros, pois, não fazem senão lançar luz em algo escondido em nosso interior. O curioso disso é ver que a sensação de descobrir algo que já sabemos grava em nossa mente uma impressão fortíssima, muito maior que a de aprender algo realmente novo e desconhecido. E, simultaneamente à identificação imediata com a ideia, estabelecemos, também de imediato, um ponto de contato com o autor.

Mais injustificável que a obsessão…

Mais injustificável que a obsessão com a originalidade é esse constrangimento decorrente da constatação de que o dito agora já havia sido dito há muito tempo. Que dizer? O autor que, registrando as próprias impressões, nota algo já notado anteriormente, em vez de se constranger por não ter sido o primeiro, ou não ter tomado conhecimento da fonte primária, — muitas vezes irrastreável, — deveria satisfazer-se de ter chegado à mesma conclusão através da percepção direta, alegrando-se como se alegram aqueles que acham no outro algo em comum.

O autor que, por exemplo, diz algo já dito por um…

O autor que, por exemplo, diz algo já dito por um, e em seguida algo já dito por outro, por englobar em sua obra ambos os ditos, algo de novo já produziu: criando uma nova unidade, já se pode considerar original. É o mesmo que se passa com o estilo, quase sempre uma espécie de mescla, uma espécie de concatenação pessoal de diferentes traços aprendidos em fontes diferentes que, em conjunto, adquirem uma unidade inédita. Assim como não se cria do nada, aquilo que se cria só conscientemente dispensa a qualidade de criação.