Todo prefácio é mais ou menos inútil, e por sê-lo de praxe, é natural que, desde a primeira linha, tenda a entediar o leitor. Quer dizer: se algo realmente importante há de ser dito sobre a obra, que seja dito nela. Contudo, a prática legitima os prefácios, ainda que raramente se provem úteis. Mas há prefácios, Deus!, há prefácios que, não satisfeitos com a própria inutilidade, querem porque querem comprometer a obra que ainda nem começou! Nada há de mais irritante do que essa exibição ociosa de erudição, que enche as linhas de termos estrangeiros e pretende expressar uma profundidade de que a própria obra não foi capaz. É lê-los para imbuir-se de uma antipatia imediata e cem por cento desnecessária para com o autor. A pergunta é: por que, meu Deus, por quê?
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A impossibilidade de se fazer dinheiro e a inutilidade…
A impossibilidade de se fazer dinheiro e a inutilidade, se não vergonha de se fazer nome num ambiente cultural supinamente miserável deveria fazer com que persistissem nas letras somente aqueles que não podem deixar de fazê-lo. E isso é algo bom. É verdade que, na prática, tal não se efetive senão como tendência; mas já é alguma coisa. Um colosso como Mário Ferreira dos Santos serve, simultaneamente, para afastar os farsantes e motivar os ideais.
O feijão e o sonho, de Orígenes Lessa
Este destacado romance é merecedor de um lugar no legado que se deve passar adiante de geração para geração, por quanto tempo exista a literatura brasileira. Ainda que se possa alegar possíveis estereótipos, a obra coloca questões seríssimas, e as desenvolve num drama vivo, com personagens convincentes inseridos num ambiente argutamente desenhado. A obra comove porque retrata um poeta na angustiante realidade brasileira, cuja mesquinharia desconhece limites. A vocação literária é-lhe, naturalmente, a definitiva impossibilidade de adaptação ao meio hostil, à qual vocação soma-se o sentimento de dever, que o força a digladiar-se pelo imediato, num conflito interior insuperável bem resumido no título da obra. Trata-se, em suma, de um homem de valor, que afinal não se deixa corromper pelas circunstâncias desfavoráveis e pela pressão constante, especialmente dentro de casa. Fica, para além da crítica social, o questionamento: vale a pena a arte? E embora não afirme, a narrativa evidencia que valer ou não a pena nunca foi a principal questão.
Um exercício de curiosidade
Um exercício de curiosidade nos arquivos da imprensa brasileira do século passado escancara uma destruição cultural que não pode ser apenas obra dos tempos. O que de imediato se percebe é o uso do idioma: as velhas páginas evidenciam não somente o domínio do vernáculo, mas — até! — estilo. As manchetes já demonstram a radical modificação do relevante; mas é nas colunas que a real extensão do problema é percebida. Nestas, a literatura, antes abundante, desapareceu: não se acha referência a um romance, a um personagem, a um poema, a um autor; o que, noutras palavras, é demonstração de que o legado literário já não se faz presente. E se não se faz presente, convém perguntar o motivo. A resposta surge após meio segundo de reflexão: ele não aparece porque não foi absorvido e assimilado, porque não foi importante na formação dos cronistas e neles não viceja como apoio seguro para a interpretação da realidade; em suma, ele não aparece porque inexiste. Deste fato conclui-se, primeiro, que o cidadão comum que se oriente pelos jornais, talvez pela primeira vez em muito tempo, passará a vida sem tomar conhecimento do legado cultural brasileiro, a menos que recorra à literatura especializada. Em segundo lugar, o mais óbvio: são homens supinamente incultos que, hoje, escrevem para os jornais.