Na criação poética, talvez haja somente dois momentos prazerosos: o da ideação e, naturalmente, o da conclusão. O primeiro resume-se à ilusão, o segundo ao alívio. No restante do processo, não há senão luta e mais luta. Acerta-se um verso, mas a satisfação de um átimo desaparece perante a necessidade de acertar também o seguinte. Assenta-se a ideia, mas carece o verso de rima; coadunam-se ideia e rima, mas o ritmo desagrada. E assim sucessivamente, e isso somado à necessidade de encontrar palavras que, quando precisas, não se ajustam às necessidades do verso. O processo se assemelharia à montagem de um quebra-cabeça, não se tratasse este de matéria inócua a ser concatenada, não se tratasse este de um passatempo em cujo sucesso ou fracasso o praticante exime-se de consequências existenciais. A arte implica uma conexão entre duas e somente duas almas; do contrário, deixa de existir.
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O mais difícil em retratar a circunstância temporal…
O mais difícil em retratar a circunstância temporal na obra literária é especificá-la a ponto de que se torne especial, ao mesmo tempo que se lhe sintetiza a ação enquanto agente exterior num esquema que extrapole o tempo. Tenda para qualquer um dos lados, e o artista falhará em fazer com que a obra desperte um interesse duradouro, só possível quando se constrói camadas de sentido diversas, mas indissociáveis, conectando o abrangente ao particular.
O sujeito que não lê ficção
O sujeito que não lê ficção, de praxe, julga a literatura fútil e incapaz de influir praticamente na sua vida. Mas ocorre que, saiba ele ou não, privar-se da literatura é privar-se da apreensão de possibilidades, o que acaba significando, praticamente, limitar a própria vida. Em termos ainda práticos, o iletrado se distinguirá sempre por taxar o velho de novo, e por estacar diante de uma infinidade de banalidades não sabendo como reagir.
O falso escritor abre mão de sua individualidade
O falso escritor abre mão de sua individualidade para agradar, recebendo por isso o prêmio da aceitação social. Ele é falso, primeiro, por não afirmar-se; segundo, porque crê que a aceitação social seja um prêmio. Quão mais fáceis são as coisas para o verdadeiro escritor! Este vê no dilema uma maravilhosa situação de ganha-ganha: afirma-se desagradando, e recebe por isso o benefício da rejeição social.